sexta-feira, junho 13, 2014

Just another fucking surfer...

Apenas outro surfista ?


Cara, tenho uma pergunta pra te fazer, por que não tem uma única onda do Curren no teu filme ?

Eu tinha acabado de assistir o Deeper Shade of Blue e apesar de ter adorado o filme do início ao fim, não entendia como um filme que conta a história do surfe e dos diferentes estilos de se divertir na onda não tinha o mais elegante de todos surfistas - me permitam abrir um parêntese imaginário pro Phil Edwards e Mickey Dora.
Conversava com Jack McCoy no ano passado durante o Primeiro SAL (Surf at Lisbon Surf Festival) e resolvi perguntar por mera curiosidade - minha e do João Valente (editor da Revista Surf Portugal) - e a resposta não foi menos que surpreendente.
He's just another fucking surfer, disse McCoy, mal traduzindo seria algo como, ele é apenas mais um surfista, pôrra!
Aquilo me chocou, mas Jack não parou por ali.
Qual foi a contribuição do Curren pro surfe ? Ele surfava bem, e daí ?
Tambem não tem onda do Occy no filme...
McCoy me olhava com alguma irritação, aquela não era o tipo de pergunta que ele preferia responder.
Um dia antes ele recebera o prêmio de melhor filme do Festival e eu tive a honra e o privilégio de entregar com toda reverência que a solenidade merecia.
Estávamos no saguão do hotel que a família McCoy se hospedava - estavam todos lá, esposa e casal de filhos, aproveitando o melhor que Lisboa tinha para oferecer e, de quebra, exibindo sua última obra prima.
Jack falou que pesquisou pro filme como nunca tinha feito antes, ele e Derek Hynd se reuniam e discutiam por horas a fio sobre o que era relevante ou não na história do surfe.
Separaram mais de oitenta diferentes perfis de todos surfistas que fizeram algum tipo de contribuição ao esporte nos últimos cem anos - divididos em mais de 17 categorias.
Assistiram e re-assistiram todos filmes que conseguiram botar as mãos, desde a época do Duke até Kelly Slater e companhia.
O primeiro corte do filme tinha mais de tres horas e meia!
O diretor havaiano, radicado na Austrália, disse que passou uns dois anos sem saber direito o que fazer com aquele catatau de imagens que tinha compilado.
A meta que ele e o caolho decidiram mirar era escolher surfistas que tinham feito algo grandioso na arte de surfar e deixado uma marca na areia, apontando pra frente.
Curren e Occy sempre estiveram entre os primeiros que fincaram a bandeira do desempenho em alto nível para minha geração. 
De repente me deparo com a possibilidade daquilo não representar absolutamente nada...
Foi um choque.
A escolha dos personagens não foi tarefa fácil, diz ele, muitas vezes Derek achava que um camarada merecia estar na lista por inúmeras razões e Jack discordava.
Outras vezes, Jack estava convicto que fulano era fundamental e Derek enlouquecia com a escolha.
O processo passava literalmente pela defesa de determinados casos como se estivessem numa corte de justiça, até que finalmente os dois concordassem.
McCoy vacila por um instante e Valente continua a pergunta que fiz, ainda mais implicante e elaborada, 
Jack, voce reconhece que fazer um filme sobre a história do surfe e não colocar uma onda do Curren, ou melhor, colocar mas não dar sequer o crédito é como uma blasfêmia, não ?
McCoy sorri um sorriso muito do sacana e conta mais uma das suas irresistíveis histórias,
Voces sabem que a premiére mundial do Deeper Shade of Blue foi em Santa Barbara ?
(Detalhe, Tom Curren é de Santa Barbara)
Nós dois, eu e João, ficamos ainda mais curiosos...
Terminado o filme, seguia McCoy com sua descrição, eu perguntava pras pessoas, o que voce achou do filme ? e tudo que me respondiam era, Cadê o Tom Curren ?
Bom, voce quer mesmo saber ? Ele é um excelente surfista, mas não fez muito pelo surfe.
All Merrick, que fazia suas pranchas, deveria ter mais reconhecimento...
A lista de gente que ficou fora do filme é grande, diz Jack, sem pena do que ficou pra trás.
Ele passa a enumerar as pessoas que não são nem citadas no filme, todos balançamos a cabeça em consentimento.
Não resisto fazer uma última pergunta, e todo esse material, toda essa pesquisa...
Voce não tem vontade de continuar contando todas essa histórias ?

Do alto dos seus 62 anos, Jack responde com um suspiro, longo e profundo.

sexta-feira, abril 25, 2014

Bells 2013

[Aproveitando a deixa do Bells de 2014, publico aqui a resenha Facit do evento de 2013]


O indomável

Horas depois da extraordinária vitória do Adriano de Souza em Bells, a imprensa estrangeira tentava, ainda meia tonta, explicar o que todos acabavam de testemunhar.
Afinal de contas, Bells é o evento mais tradicional do mundo, mais de 50 anos sem parar, e a lista dos seus vencedores é a mais verdadeira lista de surfistas de ponta que há, mais ainda que a lista dos campeões mundiais da ASP.
Vejam só, Nat Young, Terry Fitzgerald, Jeff Hackman, MP, Mark Richards, Simon Anderson, Cheyne Horan, Carroll, Curren, Pottz, Occy, Sunny, Hoy, Dorian, Andy, Taj, Slater, Parko, Fanning...
Foi Shane Dorian que cunhou a famosa frase, Nenhum prego jamais venceu em Bells, naturalmente  defendendo seus interesses, mas isso não vem ao caso.
Adriano conhece bem a história dos eventos da ASP e tem como objetivo, alem do óbvio título de campeão mundial, fincar bem seu nome como grande surfista nos principais campeonatos do circuito.
Poucas horas depois do Mineiro literalmente quebrar o sino, o saite do jornal Tracks, quase tão antigo quanto o Rip Curl Bells Easter classic, descrevia a seguinte cena:
No banquete comemorativo dos 50 anos do campeonato de Bells, foram convidados todos campeões desde 1962, homens e mulheres.
Na oportunidade, foi lançado tambem o livro Bells, a praia, o campeonato e os surfistas do Michael Gordon (irmão daquele simpático câmeraman que entretia a todos com assovios e sorrisos).
Mineiro comprou um livro e foi, de mesa em mesa, catando os autógrafos de cada um dos campeões, mostrando respeito e devoção pela história do esporte que lhe deu tudo.
Essa é uma diferença fundamental entre Adriano e todo resto da sua geração e mais jovens, respeito pela história.

Filipe, o pequeno grande Homem

Alguem ainda se recorda das dúvidas que pairavam em torno do Filipe Toledo ?
Responsável por uma das manobras mais impressionantes de todo campeonato, Filipinho surfou com total abandono em Bells e só não mais à frente por ter enfrentado o melhor surfista de todo evento, Jordy Smith.
Precisamos apenas de cuidado ao tentar avaliar as ondas do rapaz e levar em consideração que, mesmo com um surfe de altíssimo nível, Toledo ainda tem muito o que aprender no tour.
O primeiro ano de todos debutantes é para absorver toda e qualquer informação que puder, mesmo que, como Bobby Martinez, ele vença um evento.
Um quinto em Bells é um belo começo.


O poderoso Panda

Ainda melhor do que ver Willian Cardoso bater Slater numa bateria sensacional, foi ler os comentários atônitos dos gringos perguntando sobre o Panda.
Aonde se escondia esse cara ?
Finalmente um surfista power de verdade saindo do Brasil
É o novo Richard Cram
Como esse cara não está no circuito mundial ?
As respostas são faceis.
Cardoso não se escondia, apenas competia no WQS, circuito solenemente ignorado pela imprensa e até mesmo pela própria ASP.
Um circuito sem prestígio nenhum como o WQS é praticamente um limbo entre o mais completo anonimato e os top 32.
Tirando dois ou tres eventos pingados no planeta Prime, o resto não serve nem pra encher a barrinha do lado nos maiores saites de surfe por aí.
O Panda é um produto desse circuito desalmado que serve tambem como uma espécie de organização militar, onde os cadetes devem se submeter aos mais enlouqecidos desejos dos mais graduados em nome duma possível aceitação.
Os top 32 são os oficiais, a turma do WQS são os recrutas e as grandes marcas, o estado maior.
Willian Cardoso era um recruta dedicado, seria o equivalente a um sargento hoje, tem mais horas de batalha que muito malandro nos top e deseja os escalpes com mais fúria e paixão do que todos americanos e australianos juntos.
O que acontece com o Panda hoje é a mesma coisa que passou Tiago Pires antes de entrar no tour, sempre perto da vaga, sempre batendo na trave e surfando tanto quanto seus pares no WCT.
Voltando a bateria contra Slater, Cardoso mostrou ao público com quantos litros d'água se faz uma cachoeira.
Enquanto Slater buscava os tubos apertadinhos, o Panda enterrava seus quase 90 kilos de músculos na parede do bowl de Bells e deixava todos boquiabertos.
O resultado foi uma derrota com gosto especial de merda para o careca, justo no ano que ele anunciou estar comprometido.
E desta vez, não tinha juíz pra culpar, nem falta de ondas, nem prancha...

Raoni Gigante

Juro que não aguento mais ouvir os locutores se referindo ao Raoni como matador de gigantes.
Raoni não é matador de gigantes, Raoni É um gigante!
Ele mesmo escreveu isso no twitter depois de vencer Joel Parkinson.
A lista de baixas é grande e do mais alto nível, Slater em Portugal, Fanning, Occy, Parko, todos quando disputavam títulos.
Raoni é o tipo de sujeito que cresce nesse ambiente de tensão.
Coisa de quem tinha que cair, desde pequeno, nos maiores mares em Itaúna, uma das ondas mais fortes do Brasil.
O cara ganhou um evento em Sunset, por Deus do Céu!
Evitem se referir ao Raoni com essa expressão cafona e ridícula que os gringos inventaram por absoluta falta de recursos no próprio idioma.
Raoni é um gigante, Pôrra!

Ao meu comando

Steve Shearer, meu jornalista predileto nesse mundinho cão das coberturas do WCT, aproximou-se do Mineiro e disparou, como voce está se sentido agora que toda atenção da imprensa é dedicada ao Gabriel Medina e seu futuro título mundial.
Ainda estávamos nas primeiras fases e Adriano respondeu altivo, É verdade, todos falam dele, mas se voce perceber, nos últimos cinco anos, estive sempre nos top 5. Não sou mais uma zebra. Eu sou candidato ao título.
Mineiro poliu seu surfe aos poucos e foi se livrando da sua cavada em dois tempos para o Bells deste ano, claramente observando o que funciona e o que não funciona no julgamento.
Um amigo meu disse que Mineiro compete com o livro de regras debaixo do braço e está coberto de razão.
A inteligência do Adriano vai bem mais longe do que enxergam nossos pobres companheiros de imprensa.
Mineiro sabe como ler uma onda e como estudar seu ataque pra cada uma delas, ao contrário de algum dos seus adversários que confiam somente no talento.
Voce não se mantem nos top 5 sem muito esforço instinto competitivo.
Vitórias em Jeffreys, Supertubos e agora Bells.
Adriano crava seu nome no Olimpo não apenas como maior competidor brasileiro de todos tempos, mas um dos maiores e mais ferrenhos competidores de todos tempos.
Seu nome agora figura ao lado do Nat Young, Terry Fitzgerald, Jeff Hackman, MP, Mark Richards, Simon Anderson, Cheyne Horan, Carroll, Curren, Pottz, Occy, Sunny, Hoy, Dorian, Andy, Taj, Parko, Fanning e Slater.
E em 2013, ninguem está mais próximo dum título mundial do que Adriano de Souza.

10 fatos que (tambem) marcaram o Rip Curl Pro Bells 2013

1 - Adriano venceu seu primeiro evento para seu novo patrocinador, a marca cearense Pena - todo investimento já teve retorno.

2 - Alejo voltou ao seu melhor e deve voltar pros top 10

3 - Carissa Moore fez chover em Bells e dificilmente perde o título em 2013

4 - Apesar da vitória da Carissa, Steph ainda tem a linha mais pura e bela em Bells - podemos incluir aqui mais da metade dos top 32.

5 - Nat Young sentiu-se em casa nas direitas geladas de Bells, mas a ajuda do Maurice Cole foi preciosa.

6 - A cara do CJ quando Mineiro usou corretamente a prioridade na terceira fase foi uma das cenas mais divertidas do evento

7 - O vigor com que Adriano badalou o sino até quebrar!

8 - Jornalistas australianos e americanos finalmente mostraram respeito, e arrisco até dizer, reverência ao surfe brasileiro.

9 - Parko jogou fora mais uma das suas providenciais vantagens depois da derrota do Careca

10 - Chupa Careca!


terça-feira, abril 08, 2014

Tio Buttons

As muitas faces de Buutons


Tio Buttons, Tio Buttons, me leva para mais uma onda ? 
A garotada não cansava de pedir e Buttons, incansável, repetia seu velho ritual de compartilhar o surfe, fosse um turista na sua escolinha em frente a Chun’s Reef no North Shore, ou um veterano de guerra no seu trabalho voluntário em White Plains Beach no Westside de Oahu.
Todo mundo virava garoto perto do Buttons.
O que a larga maioria dos seus alunos não sabe é que esse camarada que nunca tira o sorriso do rosto já foi um dos maiores surfistas do planeta e é hoje reconhecido como um dos mais influentes de todos tempos.
Nascido Montgomery Ernest Thomas Kaluhiokalani em Honolulu, 1958, sua mãe queria homenagear seu ator predileto, Montgomery Clifft. 
A avó quando viu seus cabelos enroladinhos lhe deu apelido de Buttons - os cachinhos pareciam botõezinhos...
Cresceu surfando em Waikiki em qualquer coisa que flutuasse, evoluiu para as famosas bancadas do South Shore, Ala Moana, Kaisers e rapidamente ganhou o mundo- e o North Shore.


Quem aprendeu a surfar no final dos anos 70, início dos 80, queria surfar como Buttons.
Os feras do Quebra Mar e do Arpoador, Itamambuca ou Pipa, caras que a minha geração admirava, queriam surfar como Buttons.
Alguns dos melhores até tinham muito do estilo do Buttons no jeito de pegar onda, Gironso no Arpoador, Valdir Vargas no Quebra Mar, Tinguinha, mesmo Picuruta, ainda na época da biquilha, tinha uma ginga havaiana.
Todo mundo vai lembrar de alguem que trazia traços do Buttons em cima da prancha.
E era aqui no Brasil que o legado do Buttons se espalhava mais rápido, por motivos quase óbvios.
O primeiro deles, fácil de identificar no primeiro olhar, cor da pele e sua cabeleira sarará que nos remetia imediatamente ao Jairzinho, Furacão do glorioso Tricampeonato na Copa do México em 1970.
De todos ídolos do surfe mundial, os havaianos de pele escura pareciam sempre mais próximos dos brasileiros por mera afinidade.
Esse, o segundo motivo, afinidade.
Quando Shaun, Rabbit e MR chegaram para brigar pelo título mundial, a coisa ganhou um ar de seriedade que não combinava muito com a geração que reinava nas praias brasileiras. 
Claro que existia exceção, uma penca delas, mas tudo que os cabeludos daqui queriam era se divertir, sem compromisso com pôrra nenhuma, como os havaianos.
Australianos, sul africanos e americanos eram claros demais, loiros demais, quietos demais...
Havaianos e brasileiros eram mais espaçosos e divertidos.
Bocão, Otavio Pacheco, Rico, Proença, sentiam-se em casa com os Aikau, Abelira, Kealoha, Ho, Carvalho. 
Buttons nunca estava sozinho (como os brasileiros!), fosse nos filmes, na temporada havaiana ou nas revistas.
Voce lia o nome dele e logo ao lado vinha escrito, Mark Liddell e Larry Bertleman, o trio calafrio de Velzyland.
Bertleman era um pouquinho mais velho e exercia enorme influência nos outros dois e durante um curto período, Bertleman foi um dos surfistas mais bem patrocinados do mundo - isso num tempo que a palavra patrocínio ainda não tinha a dimensão que tem hoje.
Bertleman era um superstar e Buttons seu pupilo mais virtuoso.
Quando o filme Playgrounds in Paradise foi exibido no teatro do Hotel nacional (talvez Colégio Rio de Janeiro...) para um público de ensandecidos surfistas, um dos momentos de maior delírio foi a entrada triunfal do Buttons fazendo mágica com sua Stinger Aipa.
Breve pausa para explicar o que era, e representava, uma Prancha modelo Stinger shapeada pelo Ben Aipa.
Ele mesmo, Aipa, era um excepcional surfista, mas foi sua ousadia como shaper que o tornou lendário. Aipa foi o camarada que refinou a prancha para onda pequenas, criando a rabeta Swallow para dar mais agilidade nas manobras e teve a brilhante idéia de enfiar um Wing quase no meio da prancha tornando suas pranchas verdadeiros skates.
Buttons, Bertleman e Liddell eram os pilotos de teste do Aipa e ainda arrastavam a quilha o máximo que podiam pra frente, deixando quase nenhum impedimento para curvas nunca antes sonhadas.


Percebam que entre 75 e 78 quase todo imaginário havaiano rondava ondas grandes ou gigantes e de repente aparece aquela turma de Velzyland sufando ondas pequenas, finalmente possíveis, manobrando com uma criatividade absurda e desenhando um linha completamente diferente de tudo que se via nos filmes da época.
O que Buttons fazia era humanizar e aproximar a fantasia de um Havaí improvável para qualquer um.
Não eram mais ondas assustadoras como Pipe, Sunset ou Waimea, Buttons e cia pareciam se divertir tanto nas ondas pequenas de Velzyland quanto Lopez em Pipe, ou BK em Sunset - talvez mais.
Duma hora pra outra, o surfe voltou a ganhar um ar inocente de brincadeira, uma coisa quase infantil de experimentar só pra ver no que vai dar.
E assim foram surgindo 360s, rock’n rolls, cut backs com curvas de ângulos obtusos, lay backs extendidos até não poder mais e uma alegria de surfar impressionante.
Buttons cavava de front side, chegava no lipe e trocava de base, batia de back side, voltava e trocava de base novamente.
Tudo subitamente parecia possível vendo Buttons surfar.
Enquanto todos surfistas do seu calibre correram para o recem criado circuito mundial, Buttons não queria deixar o Havaí por nada desse mundo, numa preguiça digna de Macunaíma, nosso heróis sem caráter.
Fora dágua Buttons arrepiava de skate, imitando Alva e Peralta, antecipando em pelo menos 20 anos a influência que o carrinho devolveria pro surfe com a ascenção dos aéreos.
Nem sempre a vida foi justa com ele. Buttons deixou-se levar pelas drogas que tomaram, ainda tomam, tantas vidas no Havaí.
Durante alguns anos Buttons sumiu do mapa, desintegrou-se até ser achado sem muita esperança nas esquinas do mundo.
Reinventou-se com quase 50 anos, largou um vício, drogas, voltou para outro, surfe.
Reapareceu como se nada tivesse acontecido, forte como um touro, surfando com a mesma alegria, fez uma escolinha para ensinar surfe e espalhar o Aloha.
Foi fisgado por um imperdoável cancer e faleceu aos 54 anos apesar de todo esforço que a comunidade fez para ajudá-lo.
A herança dele está clara na homenagem que Kelly Slater fez à ele no Instagram,
Buttons surfava do jeito que nós sonhávamos ser possível surfar.

Buttons & Aipa = Boom! Pow! 


HISTORIA CURIOSA - Final de 7 em Pipe

Em 1981, logo após ter sido anunciado os classificados para a grande final do Pipeline Masters, Buttons tinha ficado em quinto na segunda semi e não achou justo o resultado.
Houve, possivelmente, uma onda que não foi vista, ou confundida.
Os Black Trunks resolveram dar uma forcinha, o tempo fechou e, pela primeira vez (talvez a única!) na história da ASP uma final teve 7 surfistas ao invés dos tradicionais 6.
Buttons ainda terminou em terceiro, mesmo fazendo uma gritante interferência no Allan Byrne.
O evento foi vencido por Simon Anderson num modelo de prancha muito contestado então, a triquilha.

Todos outros competidores, Buttons incluso, estavam de monoquilha.

Até Breve... Foto do Divine

segunda-feira, março 24, 2014

Poetinha de pernas pro ar

Por tras desse sorriso tinha um grande sacana


Vinícius dizia com certo orgulho que sua vocação mesmo era pra ser vagabundo.
Sim, esse Vinícius mesmo que voce está pensando, o poetinha, Vinícius de Moraes.
Numa entrevista feita em 1973, ele declarou que, 
       Há muita gente que não entende que o homem não precisa - e eu acho que não devia nunca- renunciar ao ato de brincar. 

Eu exijo o direito de brincar e mostro brincadeiras tambem, ao lado das coisas sérias, porque acho que tudo é sério. Tem gente que esquece que tudo é sério, mesmo as brincadeiras, e então, essa gente assume uma 'coerência' que eu não entendo, nem quero, uma coerência burguesa e limitadora.

Uau, pensei com meus botões, esse camarada falou comigo.
Temos uma alegria infantil ao dar de cara com ondas que falam conosco, sejam grandes ou pequenas, mas que falam conosco como apenas aquele antigo brinquedo falava.

A tentativa de tornar a nossa simples atividade em algo intelectualmente inatingível é coisa de gente pobre de espírito que deseja elitizar qualquer coisa que se populariza para para poder distinguir-se.
Separar.
       Revejo fotos antigas e identifico ali uma característica que não envelheceu com o tempo, a alegria.
Não confundo essa alegria com felicidade, que é uma coisa fugaz, a alegria é um sentimento que te cobra menos, e custa menos.

E a brincadeira é o melhor veículo para essa alegria repentina.

Quando voce, caro amigo, termina uma onda bem brincada, toda fantasia volta à tona e somos todos meninos (e meninas) novamente.
Nesse exato momento, somos todos iguais.

Drumond, Vinicius, Bandeira, Quintana e Paulo Mendes Campos na casa do cronista maior, Rubem Braga


Prancha zero ou toco velho, 15 temporadas na Indonésia ou nunca saiu dali, roupa de borracha de 1.500 pratas ou sungão desbotado, tatuado ou não, feras e pregos - iguais.

        O ato de brincar era altamente condenável pelos colonizadores na época dos descobrimentos e a coisa não foi diferente com os nativos polinésios quando os missionários perceberam que surfar não tinha objetivo prático nenhum.

Em sociedades baseadas em sofrimento e cobrança, qualquer prática que remotamente lembrasse diversão era banida.

No Brasil de Cabral, os índios eram considerados preguiçosos porque não passavam todo dia trabalhando e reservavam boa parte do tempo para o lazer.

O sorriso fácil do índio era confundido com uma certa ingenuidade e frequentemente taxado de abestado.

Curiosamente, nossa experiência com surfe passa tambem por isso, essa insistente associação com a preguiça, com a tolice do surfista.

Pois esse é o nosso maior orgulho.
Desconheço outro jeito de levar a vida.

Vinicius e Georges Moustaki curtindo uma praia, preocupadíssimos com a fauna e flora de Ipanema depois das 10 da noite...


Quem mais se aproxima dessa lentidão e descompromisso talvez seja o pescador, ou a criança...
A criança não quer (e não deve querer) fazer outra coisa senão brincar, da hora que acorda até a hora de ir deitar.

         Então envelhecem um aninho e já exigimos deles um compromisso com a vida adulta e aos poucos roubamos, inadvertidamente, quase todo tempo que eles tem para brincar.

Primeiro vem a escola, e os deveres de casa, inscreve no futebol, na natação, curso de inglês, escova os dentes, veste sozinho, come sozinho, calça sozinho, sai dessa televisão, desgruda do computador, faz alguma coisa da tua vida!

Crescemos buscando uma fuga pra todas essas obrigações e um belo dia descobrimos uma fonte inesgotável de diversão - o mar.
[Eu poderia usar a bola no lugar do mar, funcionaria perfeitamente, mas isso é uma revista de surfe e eu preciso ganhar a vida.]

A ida para o mar nos arremessa novamente para um lugar perdido da infância, quando brincávamos sozinhos sem ninguem perceber e um dia inteiro se passava.

Queria fugir do discurso fácil e repetitivo de avisar que nossa vida hoje é intermitentemente conectada com telefones e computadores, já não temos a privacidade dos nossos pais.

Nossos filhos terão ainda menos.
Armados apenas com uma prancha, ou mesmo sem ela, vamos pro mar em busca da alegria, do nosso sorriso, da brincadeira.
Acho que essa seria a melhor herança que poderiamos deixar pros filhos, não o surfe, mas saber brincar.

Não há nada mais útil e permanente do que brincar.
E o resultado é sempre o mesmo, um sorriso.

Uma campanha publicitária da marca Instinct, que pertencia ao campeão mundial de 1977 Shaun Tomsom anunciava, Tudo bem esperar por uma onda, tem gente que espera a vida toda por nada...
O surfista, no auge da sua inércia, espera pelo sorriso da natureza e se basta.

O Poetinha com seu melhor amigo, Uísque (O Melhor amigo do Homem é o Uísque, o Cachorro engarrafado, dizia Vinícius)

quinta-feira, março 13, 2014

O Homem que não estava la

O Homem que estava la...


         É tentador usar frases de filmes como alegoria pra tentar deixar clara uma idéia.
Não resisto à possibilidade, mínima, do leitor acabar por assistir o filme e relaciona-lo ao fato aqui narrado.
Comparei mais de uma vez Kelly Slater aos inesquecíveis personagens do Clint Eastwood - Willian Munny e Harry Callahan para não me estender demais.
Cada ano que passa, Kelly fica ainda mais cinematográfico como personagem.

O nome do filme é O homem que não estava lá (escrito e dirigido pelos Irmãos Coen, EUA, 2001), a cena, escura, preto e branco, o advogado se recusa a aceitar que seu cliente acaba de confessar o crime e sai com uma brilhante defesa...
‘...Tem esse cara, na Alemanha, Fritz alguma coisa. Será ? 
Talvez seja Werner. 

Enfim, ele tem essa teoria, voce quer testar alguma coisa, cientificamente, sabe ? Como os planetas dão a volta no sol, do que são feitas manchas solares, por que a água sai da torneira, essas coisas...
Bem, voce tem que olhar pra elas.
Mas, as vezes, voce olha e seu olhar muda aquilo.

Voce não sabe realmente o que aconteceu, ou o que aconteceria se tivesse acontecido debaixo do seu nariz. Então não há ‘O que aconteceu’ ?
Não num sentido que podemos compreender com nossas mentes doentias.
Porque nossa mente...nossa cabeça atrapalha.
Olhar pra alguma coisa muda aquilo.
Eles chamam isso de ‘O princípio da incerteza’.

Parece maluquice, mas até Einstein diz que o cara faz algum sentido...

Ciência. 
Percepção. 
Realidade. 
Dúvida. 
Benefício da dúvida.

Tô dizendo que, as vezes, quanto mais voce olha, menos voce sabe de verdade.
É um fato.
Fato provado.
De certa forma, é o único fato que há.’
Corta para as duas ondas redentoras do Fanning no Pipe Masters.
Duas bombas nos derradeiros segundos das baterias decisivas que lhe valeram o terceiro título mundial.
Voce diz que valeu, eu digo que não, ou vice versa.
Seu olhar muda tudo.



Esse Pipe Masters tinha algo de arrebatador.
Tinha tanta coisa importante em jogo, quem era capaz de ousar perder algo ?
Sim, mesmo com Heats on demand e tudo!
O importante era testemunhar história sendo feita ali na sua frente, fosse na TV, na areia, na tela do computador ou no bendito telefone - quantas alternativas.



Ciência

Ninguem esperava que Miguel Pupo dropasse a melhor onda dos últimos 20 anos do Pipe Masters.
Ou melhor, esperávamos sim.
Se havia alguem nesse injusto planeta que acreditava nisso éramos nós, esperançosos brasileiros, rosto colado no monitor.
Nada mais justo do que a onda do (novo) século ser surfada por alguem de fora do círculo - triângulo ?-  Australia/EUA/Africa do Sul.
A nova ordem mundial vem destas bandas.
Preparem-se.
Pupo teve um 8.7 contra Alejo na segunda fase e um 9.07 em cima do Josh Kerr, mesmo homem que tirou o título mundial do Slater em 2012.
Jeremy Flores tem sido o surfista dos milagres em condições extremas (como esquecer Teahupoo em 2011 ?), já vestiu a coroa do campeão no Pipe Masters mas nada pode fazer diante de um predestinado Miguel Pupo.
Miguel não venceu apenas uma bateria, ganhou respeito pro resto da sua carreira.
Quando quiser remar num Pipeline de verdade, acima dos 10 pés, vão olha-lo diferente.



Percepção

Antes de começar o Pipe Masters, Medina já era candidato a melhor onda do inverno no maior saite de surfe do mundo.
Isso quer dizer que a mensagem estava dada, passado o tempo de experiência, agora é hora de partir pra cima de igual pra igual.
Nada de surfar apenas na hora da bateria ou algumas horas antes.
No meio da multidão de locais e pretendentes, body boarders, encrenqueiros e tudo mais que enfrenta Pipe em troca de exposição, Gabriel Medina já não se satisfaz com restos e quer o que é seu.
Nick Carroll notou, logo na primeira vez, que Gabriel tinha a ousadia de usar toda área onde é possível quebrar ondas em Pipe - ao invés de ficar sentadinho esperando sua vez, ou sua onda, como tantos antes dele.
No evento, Medina não poderia ter vida mais difícil, pegou o irmão do homenageado na primeira bateria e deu um verdadeiro baile no Bruce.
É inútil descrever a surra, basta dizer que fez a maior média do dia e, de quebra, meteu um alley oop no final de uma onda - detalhe, descartou uma nota 8!
Foi preciso John John para dar um fim nisso.
Tem volta.



Realidade

Florence arrastou seu segundo Triple Crown em tres temporadas - que tal ?
AInda resta vencer o Pipe Master e título mundial.
Quantas vezes ? seria prudente perguntar.
No North Shore, não sobra nada, exceto migalhas - e ele quer mais.
Sua frustração era evidente no pódio, o que é sempre um bom sinal.
Tudo indica que deixou de ser o rapaz que não liga mais pra isso, nem aquilo, chega de sorrir por nada.
Até seus vídeos andam mais introspectivos ultimamente.
No Pipe Masters, JJF bateu Medina (por pouco), Julian e Fanning sem muito esforço.
Seu calcanhar de Aquiles ainda é excesso de respeito, mas algo me diz que depois dessa derrota inesperada (para ele), Slater deixará de ser um ídolo para se tornar um adversário.


Dúvida


        Hoje é fácil dizer que o terceiro título do Fanning era certo como 2 + 2.
Com tamanha obstinação, Fanning podia ser campeão de qualquer esporte, natação, remo, rugby, porrinha ou xadrez.
Voce olha pro sujeito e percebe que existe apenas um objetivo na vida do camarada - ser campeão mundial.

O Macaco Albino não foi, em nenhum evento, o melhor surfista da temporada, nem no campeonato que ele venceu - esse mérito, voces bem lembram, foi do Medina.
Mas o diabo é que Fanning nunca perdia antes das quartas e fazer isso é tão difícil, ou mais, do que ser simplesmente o melhor.
O danado do australiano tem uma fórmula que dá certo e a usa sem pudor.
Quem não gosta, que se dane.
O que importa, no frigir dos ovos, é o título.
E já são tres...

Muito se falou, e escreveu, sobre uma possivelmente intencional interferência do Mick no JJF.
Seria como acreditar que o Flamengo, Portuguesa e Fluminense já tinham 
acertado tudo antes do Brasileirão acabar.
Fanning foi cirúrgico na disputa ao título e nas baterias mais importantes do Pipe Masters.
Num Pipeline que ele não deve ter surfado mais um punhado de vezes, Fanning se jogou em tudo que aparecia pela frente, despencando em vacas terríveis até conseguir a redenção na última e derradeira onda contra C.J. Hobgood.

Mesmíssima cena diante de um furioso Yadin Nicol.
A calma no momento mais tenso do ano, a categoria em fazer um Fade em pleno drope e o tubo consagrador não é coisa pra pessoas comuns.
Nosso olhar muda tudo...

JJF e KS11, duas gerações de domínio em Pipe


Benefício da dúvida

Logo após a final, quando perguntado, pela enésima vez, se abandonaria o circuito mundial, Slater disse, Não, esse evento me deixou puto o suficiente para continuar mais um ano.
Façam suas especulações sobre o futuro do surfe profissional, mas nunca deixem Slater de fora.
Hoje, assim como nos últimos 20 anos, Slater É o surfe profissional.
Foi o melhor surfista quando as condições realmente importavam.
Kirra, Fiji, Teahupoo, Pipe.
Claro que teve um soluço em Bells classico diante dum inspirado Willian Cardoso, mas isso faz parte do serviço.

Fez quatro finais contra duas do campeão mundial - ganhou tres.
Sua vitórias foram sempre espetaculares, um misto de tenacidade, talento puro, estratégia e explosão.
Quase todas outras vitórias do ano foram apenas fruto de uma ou duas das virtudes citadas acima, enquanto Kelly reunia todas como num feitiço fabuloso - de fábula mesmo.
Relembrem a primeira onda da final em Fiji...
Aquilo não era sequer humano, muito menos racional.

Slater passa por um momento de extrema importância emocional, basta ver como se comportou quando saiu da final do Pipe Masters.
Era seu sétimo triunfo naquele palco, ele deveria estar de certa maneira acostumado com a pompa e arrebatamento de mais uma vitória e no entanto corriam-lhe lágrimas soltas cada vez que analisava os detalhes da final.
Ele sabia que o destino tinha lhe pregado uma peça.
Andy mandou aquelas duas ondas pro Fanning!

O Careca diabólico tinha virado, subitamente, uma criança carente, aflita e insegura em busca de alento.
Nos dava a impressão que a qualquer momento ele iria abraçar todo mundo e pedir colo.
Ele sabia que era o campeão de fato, mas não de direito - não desta vez.
Na sua cabeça, todo plano estava feito, Fanning perdia, ele fazia a final contra JJF, ganhava e se aposentava com todas glórias sonhadas.
Quando acordou, Slater se deu conta que os outros sonhos tambem se tornam realidade.

Seus adversários tem tantos sonhos...

Miguelito, sonhando acordado

domingo, fevereiro 02, 2014

Valter e as ondas


Valter e sua arte - Foto Agobar Jr


Valter é um sujeito comum, feito eu e voce, exceto pelo talento absurdo que Deus lhe deu para pegar onda.
Quando sobe na prancha, Valter deixa de ser uma cara normal e vira uma especie de divindade pro resto da multidão que lota a praia.
O pessoal tem uma baita admiração pelo Valter.
Mas ele pouco se importa com isso, Valter gosta é de pegar onda - e o que ele gosta ainda mais é de onda ruim.
Sim, voce leu certinho, onda ruim.
Fechada, mexida, sem força, buracão, pequena, grande, estilhaçada, torta, feia, porcaria de onda.
Por ter tanto talento pra surfar, Valter age como mais ou menos como Brando fazia na escola.
Explico, Marlon Brando sabia que era o menino mais bonito do colégio, mais carismático, as gatonas se derretiam por ele e Brando as ignorava por puro despeito.
Brando, sempre um provocador, escolhia as rejeitadas simplesmente pra chocar.
Valter, por outro lado, não quer chocar ninguem, quer apenas se divertir.
Nos dias clássicos, a turma senta na areia e assiste Valter desenhar as curvas mais lindas nas ondas que sobram - raramente ele dropa a maior do dia ou mesmo disputa onda no pico.
O maior talento do Valter é transformar lixo em arte, assim como um Arman (Google nele!), ou, pra usar um exemplo mais atual e brasileiro, Vik Muniz.
Onda perfeita, reflete Valter, qualquer um surfa.
Quero ver encaixar numa craca a 100 por hora e acertar a junção, sem voar braço pra tudo quanto é lado.
A cena descrita acima não dura mais que 10 segundos, parem pra pensar nisso.
Valter acha muita graça nos amigos que desprezam onda ruim - e não são poucos os que debocham dele.
É que Valter não curte gastar a grana suada em longas viagens, existem outras prioridades, família antes dessas extravagâncias e estamos conversados.
Volta um amigo da Indonésia, passa horas contando das ondas formidáveis que surfou, o luxo do barco, a cerveja gelada, os bons companheiros que teve a sorte de conhecer e Valter acha um barato tudo aquilo, sinceramente.
Não pensei voces que Valter nunca viajou! 
Ele viajou sim, quando ainda era solteiro, não tinha filhos, e ele viajou um bocado.
Até hoje os locais se recordam das ondas do Valter naqueles picos isolados do Oeste da Austrália, ou no Kauai, mesmo nas Filipinas tem gente que não esquece o jeito elegante do brasileiro cabeludo.
Acontecia, quase sempre, do Valter voltar pra casa e logo na primeira semana, alguma coisa mágica acontecia, como por exemplo, voltando da Indonesia pegar um Ipanema de leste, daqueles que a onda corre paralela a praia e ninguem consegue passar pelas sessões super rápidas.
Nesses dias impossíveis, Valter ia lá e pegava a onda do dia.
A turma se reunia final de tarde e cada uma das testemunhas daquele momento sublime descrevia a onda, igual a Desert Point.
Que ninguem se engane achando que Ipanema - ou qualquer outro pico aqui no SalveLindo-  quebra, ou quebrou, alguma vez como Desert Point, mas com Valter Ipanema virava Pipe, J. Bay, Puerto - era o dom do cara.
Sua maior alegria era comparar os melhores, e piores, dias na sua praia com as ondas mais cobiçadas do planeta.
Nelson Rodrigues, cronista que criou o estilo mais copiado da nossa imprensa (que o diga Jabor, todos dias, mil vezes!) dizia que não podia nem atravessar o túnel que já sentia um estrangeiro.
Valter tinha essa mesma estranha sensação.
Era capaz de surfar um dia clássico em Padang incomodado ao saber que o Leme quebrou olímpico.
Sentia um baita desconforto quando estava longe das suas tão amadas praias.
Não conseguia entender porque buscar tanto uma coisa que estava ali tão perto.
O que Valter procurava, desde moleque, cavucando buraco na areia pra pegar tatuí, soltando pipa nos dias de sudoeste, jogando pelada na praia, ou pegando onda, não era a perfeição.
Valter buscava simplesmente a diversão e nada o divertia mais que um dia de onda ruim.
Ele era feliz assim.
E fazia a alegria de quem o cercava.

Valter é um sujeito comum, feito eu e voce, exceto pelo fato que ele ama onda ruim.

quinta-feira, outubro 17, 2013

OBA ! Radin de Pia 28



1 Get Smart Theme The Ventures
2 Cannabis (instrumental) Serge Gainsbourg
3 Balada Cavernosa  Lula Côrtes & Má Companhia
4 Weed On The Tree, Forty On The Floor Tommy Guerrero & Gadget
5 Silencio Ojos de Brujo
6 Mira como viene Jarabe de Palo
7 Light My Fire Maysa
8 The Grown Folks Thing O.C. Tolbert
9 I've Told Every Little Star Linda Scott
10 House of bamboo - Earl Grant
11 When I Take My Sugar To Tea Boswell Sisters
12 Vai ser bom Fevers
13 Like A Virgin The Lords of the New Church
14 Love Removal Machine (Bonus Track) The Cult
15 Crash The Primitives
16 You Know Who Your Friends Are The Pretenders
17 Rocket Man (I Think It's Going to Be a Long, Long Time) Kate Bush
18 Billy Prefab Sprout
19 Lost Weekend (7" version) Lloyd Cole & the Commotions
20 Cruel to Be Kind (Feat. Nick Lowe) Wilco
21 Flying Around The Sun With Remarkable Speed Giant Sand
22 Your Waiting Mark Eitzel
23 I Should Have Known Better She & Him
24 I Should Have Known Better The Beatles