segunda-feira, março 23, 2015

Janela

[Texto recuperado do HD de 2002, quando ainda colaborava com o então tímido site waves - ainda lá está, no mesmo lugar.
Revisitar velhos escritos dá um misto de orgulho e vergonha simultaneamente.
Orgulho de enxergar determinadas coisas antes e vergonha de usar tantas conjunções e recursos baratos de linguagem que hoje evito com todas forças.
Me admiro da incrível coincidência de encontrar Galeano mais uma vez num texto escrito 12 anos antes desse último publicado aqui no Goibada.]




Tenho a incômoda capacidade de enxergar surfe em tudo quanto é canto.
Na entrevista do escritor uruguaio Eduardo Galeano no jornal O Globo de Domingo, 21/07/2002, reparei numa frase que cai tão bem na nossa cultura surfe que inspirou esse texto.


O que alguns bobos acham que é defeito acaba sendo a nossa maior virtude.

Primeiro me veio à cabeça o Peterson, talvez o surfista mais incompreendido do circuito WCT, de uma campanha avassaladora, só pra usar um termo muito em moda, ignorando Slaters e Fannings afora, de costas e de frente, Backside e frontside pros mais maldosos.

Logo em seguida, não sei porque diabos, acometeu-me um vídeo novo chamado Momentum - under the influence, espécie de versão atualiazada do primeiro Momentum, onde as estrelas tem todas menos de 23 anos e, supostamente, os melhores do mundo.

No que resta de minha memória, 
comprei o Momentum no Havaí, em 92, quem recomendou foi o Sérgio Noronha, que assistia 200 vezes a fita por dia.
O impacto foi grande, todo mundo conhece e ninguem mais aguenta tanta gente lembrando do Slater, Machado, Dorian, Kalani, Knox embalados pelo sonzinho bacana e pra cima do Bad Religion, Nofx, Pennywise e Gangrena Gazosa, opa!, brincadeira...

Uns 30 anos depois, lançaram até aqui no Brasil, sem direito ao secret-video, umas das sequências mais legais do VHS, mas voltemos a 2002....

A versão 3.0 do ganso de ovos de ouro do Taylor Steele, sob a influência, não nos revela sequer um brasileirinho.

Nem umzinho...




Admirador dos vídeos da rapaziada que tem no emblema o nome Poor specimen, não tenho dificuldade nenhuma em elogiar todos 23 títulos da Família Steele.

Não o faço por impaciência.

Reconheço, entretanto, que não deve haver qualquer preconceito nem desprezo da parte dos produtores para cima dos meus conterrâneos - nem poderia - taí a prova no premiado filme de Skate, Hallowed Ground, encomendado pela mais nova gigante da Surfwear, recém comprada pela Nike pela bagatela especulada de 140.000.000 milhões de Verdinhas, sim senhores, a Hurley, filhote de Bob Hurley, ex representante da Billabong nos E.U.A.

O Brasil, e os brasileiros, são destaque no Hallowed Ground, filmado em 16 mm, com direito a incursões na trilha e tudo - talvez porque fica difícil ignorar os títulos do Bob Burnquist, patrocinado da Hurley/Nike e cia Ltda.

Mas os carrinhos não são, nem de longe, assunto de meu interesse, portanto voltemos ao surfe.

Concluindo então que não há preconceito, existe até (pasmem!) admiração, como explicar a ausência absoluta de surfistas de passaporte verde entre os melhores do mundo com menos de 23 anos, segundo Taylor Steele ?

De cabeça, sem coçar muito a careca, Trekinho, Raoni, Pedro Henrique, Pigmeu, Léo Neves, Mineirinho, Marco Polo...

A lista é maior, tão grande quanto a injustiça.

Devo substituir os gringos palhinha por qualquer um da lista acima ?

Fica o Taj, Bruce e Andy, Dean, C.J e Damien, Rasta, Fanning e Joel.

O resto roda.

Sobra então pro Rafael Mellin, solitário guerrilheiro/video-maker, a árdua e agradável tarefa de revelar ao mundo, começando pelo Brasil, o talento não reconhecido (por enquanto!) dessa gente bronzeada tentando mostrar seu valor.

Que venha o Lombrô 3, pra saciar a sede de sangue novo.



PS - Voce, meu caro leitor, vai comprar ou copiar o vídeo quando assistir na casa do amigo ? e por que ?

sábado, março 21, 2015

Viagem pra dentro

[Texto resgatado de 2014]
Na legenda original da Surfer, O Templo do Entusiasmo - Foto do Pai de todos, Ron Stoner




Pilantragem suprema é citar textos longos.
Sempre andei acompanhado do Galeano, Eduardo Galeano, escritor uruguaio que escreve com sangue, suor e lagrimas.
Galeano gosta de contar histórias da America Latina, dos povos esquecidos, contos, fábulas, mitos e adora falar dos becos e esquinas que pouca gente vai se dar ao trabalho de conhecer.

Sua trilogia, Memória do fogo, foi premiada pelo Ministério da Cultura do Uruguai e recebeu o American Book Award (Washington University, EUA) em 1989, mas isso não tem a menor importância.
O que ele escreve, e principalmente o jeito dele escrever, é o que importa.
Numa edição especial de viagens - justamente numa época onde a aventura transformou-se num pacote simpático, suavemente parcelado em 12 vezes sem juros - não poderia faltar a leitura do Galeano para um tempo de mudanças.

Extraído do livro De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999), o trecho a seguir carrega mais de uma mensagem.
Ele nos ensina, ou melhor, relembra uma coisa que já ouvimos antes, de maneiras diferentes, a verdade está na viagem, não no porto.
A viagem começa quando voce decide.

Lembra de quando toda onda era assim ? Foto - Ron Stoner

Me solidarizo com o leitor que viaja sem sair do lugar.
Nem todo mundo tem uma pequena fortuna para gastar em passagem e hospedagem num barco luxuoso do outro lado do mundo.
Pra ser mais específico, nem todo mundo tem sequer a graninha que é preciso para ir até o norte do Peru para pegar onda.
Pipa ? Saquarema ? Maresias ? Noronha ?
Quem disse que faz falta ?

Essa revista que voce tem nas mãos ajuda a vender esses sonhos.
A TV martela ondas azuis e perfeitas como se fosse a tarefa mais simples da face da terra entrar num avião e aterrissar numa ilha paradisíaca.
Pra muita gente é mais fácil desprezar a própria praia do que aprender, ou re-aprender a gostar dela.
Esquecem-se que essa mesma praia que hoje desdenham foi aquela que os ensinou a amar o mar.
Foi nessa mesma água suja e ondas ruins que voce ficou em pé pela primeira vez na prancha e nunca mais quis saber de outra coisa.
Toda memória que temos das nossas praias não podem ser apagadas pela fantasia da onda perfeita.
Afinal de contas, nossa referência de onda perfeita foi estabelecida exatamente naquele dia mágico da nossa infância.
Aconteceu com voce em 1987, com seu amigo mais velho em 1975, com o Greg Noll em 1949 e com Medina em 2001.
E acontece todos dias, igualzinho, com as mesmas sensações e os mesmos cheiros e texturas.
Galeano escreve sobre isso.



A natureza se realiza em movimento e também nós, seus filhos, que somos o que somos e ao mesmo tempo somos o que fazemos para mudar o que somos. 
Como dizia Paulo Freire, o educador que morreu aprendendo: “Somos andando”. 
A verdade está na viagem, não no porto. 
Não há mais verdade do que a busca da verdade. 
Estamos condenados ao crime? 
Bem sabemos que nós bichos humanos andamos muito dedicados a devorar o próximo e a devastar o planeta, mas também sabemos que não estaríamos aqui se nossos remotos avós do paleolítico não tivessem sabido adaptar-se à natureza, da qual faziam parte, e não tivessem sido capazes de compartilhar o que colhiam e caçavam. 
Viva onde viva, viva como viva, viva quando viva, cada pessoa contém muitas pessoas possíveis e é o sistema de poder, que nada tem de eterno, que a cada dia convida para entrar em cena nossos habitantes mais safados, enquanto impede que os outros cresçam e os proíbe de aparecer. 
Embora estejamos malfeitos, ainda não estamos terminados; e é a aventura de mudar e de mudarmos que faz com que valha a pena esta piscadela que somos na história do universo, este fugaz calorzinho entre dois gelos.

Eduardo Galeano,

De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999)

terça-feira, fevereiro 17, 2015

Silencio eloquente

Carlos Mudinho, um Homem religioso que merece a devoção dos que vivem o surfe

As mãos dele falam tanto quanto os seus olhos.
Cada palavra que ele quer dizer é explicada com uma quantidade de recursos fantástica, exatamente igual ao jeito dele pegar onda.
Os movimentos dos braços indicam distancias, caminhos e são sempre acompanhados de uma absurda agilidade com quadril e as pernas - absurdo para um senhor de 60 anos.
Carlos Mudinho é um dos meus surfistas preferidos, dentro e fora d’água.


Nem todos conhecem ou sequer ouviram falar do Mudinho, quem o viu surfar não esquece jamais.
Mudinho tem a classe dos grandes de toda história.
Descende direto da linhagem que passa por Phil Edwards, Mickey Dora, Barry Kanaiapuni, Curren e John John.
Alguem já escreveu que elegância é economia de gestos e Carlos Mudinho surfando representa como ninguem essa frase.
A surdez nunca foi obstáculo, aprendeu a ler lábios - e ondas.
Não há um instante de silêncio ao lado dele, os sons jorram numa explosão eloquente, se faz tão claro quanto um apresentador de jornal das oito.
A expressão Mestre tem mais de um sentido quando penso no Carlos Mudinho - Profissão e vocação.


Pura Categoria


Os surfistas brasileiros não são especialmente famosos pelo estilo, mas sim, temos alguns exemplos que não fariam feio no quesito graça em cima de uma prancha.
Rapidamente, sem pensar muito, relembrem comigo, Fabio Gouveia, Picuruta, Pitzalis, Castejá e Daniel, uma lista pequena dos mais influentes e estilosos prancheiros da nossa curta história.
Gente que, por obra divina ou muito trabalho duro pra conter os ímpetos, fez a escolha da beleza antes da objetividade.
Hoje é justamente o inverso, objetividade antes da beleza, ou seja, a grande maioria que começa a surfar prefere aprender logo a fazer uma penca de manobras, voar e rodopiar, sem dar a menor bola pro estilo.
Mudinho unia (ainda une!) funcionalidade e estética.

Não vi a fase de ouro dele, final dos anos 60 e início dos anos 70, fui conhece-lo apenas nos 80, quando os pranchões tiveram um renascimento e foi criado um circuito brasileiro, e mundial, de pranchão - paralelo ao de surfe profissional.
Enquanto a maioria da macacada tentava surfar com uma 9’6’’ como se estivesse de 5’10’’, Mudinho levava pra dentro das baterias um surfe clássico e poderoso baseado numa postura firme e uma intimidade fenomenal com as bordas da prancha.
Aquilo era música para os olhos.

Toda vez que ele ia pra água, mágica acontecia, avançando ou não nas competições.
E quanto maior o mar e melhores as ondas, mais distante ficava o desempenho do Mudinho pra todo resto.
Nat Young era o único que acompanhava o ritmo - ritmo dos anos 60, entenda-se.
Ao contrário da maior parte dos caras que competiam no circuito dos pranchões, Mudinho parecia apenas interessado em esticar seu tempo surfando e melhor desculpa não havia para os quarentões levar adiante a vida de surfista.
Shaper que atravessou cinco décadas fazendo pranchas de qualidade inquestionável, ainda hoje seus pranchões são considerados obras de arte.
Quando comecei a surfar, minha primeira prancha foi uma Carlos Mudinho 7’2’’ vermelha com um raio branco, presente do namorado (hoje marido) da irmã mais velha.
O fascínio começou ali.
Quando fiz a lista de mais de 80 entrevistados para a série 70 e tal do canal OFF, destaquei que uma entrevista com Mudinho não era apenas necessária - era fundamental.
Tentei explicar, sem sucesso, a importância dele.
Ensinou Rico (e outros!) a shapear no final dos anos 60, venceu eventos importantes, explorou e desbravou como poucos o litoral de norte a sul do Brasil e surfou, e aqui enfatizo novamente, surfou - e surfa! - de forma sublime.

Mudinho no Pier em 1972



Mudinho mora hoje em São Pedro da Aldeia, surfa quando pode, dá aulas para surfistas surdos e aguarda com alguma ansiedade pela sua aposentadoria para poder surfar mais.
Pesquisando na grande rede, percebo que celebra-se pouco a arte desse camarada que é possivelmente o surfista brasileiro mais menosprezado pela imprensa.
Achei uma excelente entrevista feita por outro surfista surdo, Renato Nunes (http://carlosmudinho.blogspot.com.br), que fazia a tradicional pergunta, qual foi o grande momento da juventude...
A resposta conta tantas histórias que merece ser publicada na íntegra.

Uma vez, em 1967 teve uma forte ressaca no mar, as ondas quebravam de 4 metros e rolavam bem atrás do pontal do Arpoador. Foi super sufocante para atravessar a arrebentação e ficar bem longe da praia, como se estivesse em alto mar. Foi fora do comum. Peguei ondas grandes com uma 9’4 noserider Surfboard House. Nesse dia só entraram na água alguns longboarders corajosos como Geraldo, Persegue, Armando Serra, Penho, João (ex-marido da Fernanda Guerra, primeira surfista brasileira) e outros que não me lembro o nome. O meu outro momento marcante foi quando ganhei o campeonato Extra Magno 1967 na praia do Arpoador. Com experiência de apenas um ano de longboard. Fui homenageado como revelação do ano.

Encontrei-o dia desses num almoço da velha guarda promovido pelo generoso Armando Serra, não mudou nada.
Mesma energia, mesma eloquência de sempre.
Queria passar mais tempo surfando ao lado do Mudinho para aprender mais...





segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Rato

Rato e Reno Abellira trocando uma idéia


Amizade,
partiu mais um dos nossos.
Alguem já escreveu isso, surfista é muito careta.
Somos uns assustados.
Na teoria, admitimos a liberdade e irresponsabilidade.
Na prática, a conversa é outra.
O folclore é bonito à distancia, preferimos o insosso e inodoro de pertinho.
É mais limpinho.
No documentário Futebol, do Arthur Fontes e João Moreira Salles, uma obra prima do cinema nacional, Paulo Cesar Caju aparece como um personagem fascinante no terceiro episódio.

Timaço! Júnior Marvin, Jacob Miller, Paulo Cézar Caju e Bob Marley jogando uma pelada na casa do Chico Buarque em 1980


Caju é o típico malandro carioca, mas não é qualquer malandro, Caju foi um dos maiores jogadores da história e jogou nos quatro grandes times do Rio, Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco. Era extrovertido, vestia-se de forma excêntrica, era um esbanjador, mulherengo e festeiro sem par.
Foi tricampeão mundial no Mexico em 70 com a seleção brasileira do Pelé, Tostão e Jairzinho.
Enquanto assistia o documentário, ia percebendo as semelhanças entre o PC Caju e Paulo Proença, surfista que não tive a oportunidade de ver no auge, nos hoje tão celebrados anos 70.

Proença era conhecido como Rato, ou Ratão, voces sabem o que o apelido significa, não adianta explicar.
Quando comecei a pegar onda em 1981, Rato já era uma lenda passada, viva na memória, sem nada pra impressionar um garoto de 13 anos.
Isso, até ve-lo em ação num dia clássico no Quebra-mar, principal pico de surfe do Rio no meio dos anos 80.

Curioso é que não foi jeito alegre e expressivo do Rato surfar que me abalou, foi justamente o fato do cara entrar remando num dos picos mais bem protegidos pelos locais, passar batido por todo mundo, ir diretamente lá pra trás do pico, chegar, sentar na prancha, checar quem estava por perto e virar um tabefe na cara de um pobre coitado que não tinha a menor noção do porque de levar uma bifa.
Tem que respeitar, tem que respeitar, repetia o Rato em voz alta, olho rútilo, encarando todos nos olhos.
Ele não tinha dado o tapa por nenhum motivo aparente, naquela época o pau cantava dentro e fora d’água direto.
Aquele era o código que o Rato conhecia para dizer aos locais do Quebra mar que estava ali em paz, virou a mão na cara do sujeito haole.

Fiquei muito intrigado com a figura.
Anos mais tarde, fizemos uma viagem juntos para Florianópolis.
O Rato estava sempre sem camisa, calça de Bali, copo na mão, fosse no aeroporto, na praia, na noitada.
Chegando em Floripa, depois daquela conversa de avião que não chega a lugar nenhum, descobri que o camarada não usava carteira de identidade, nem de motorista.
Nunca tive essas merdas, dizia ele, tirando um passaporte meio amassado do bolso e mostrando o documento como um delegado federal numa batida de jogo ilegal.
Um careta como eu ainda se choca com essas coisas, esse absoluto desprezo pelas convenções e liberdade auto declarada.
Em duas horas de hotel na Joaquina, Ratão já estava devidamente acompanhado duma bela loira ao lado e uma gelada na mão.
Detalhe, ele não tinha levado um tostão!
Existem os caras que tem recordações fantásticas da vida alucinada que viveram nos anos 70 e existem outros que nunca deixaram de viver essas aventuras.
Proença era um deles - um dos últimos.

Outra história dele, escatológica, ainda nos anos 80.
Arpoador, último Waimea 5000, praia lotada, calçadão apinhado de gente assistindo o campeonato, dia de sol, final de semana.
Chamada para Paulo Proença, quinta bateria da primeira fase, eis que surge, meio afobado, o próprio Rato, na nossa frente.
Apesar de novo, eu herdara uma coleção de revistas Brasil surf e conhecia Proença por ter sido capa de duas edições.
A turma de amigos ao lado, conhecia o Rato dali mesmo, do Arpoador.
Naquela época, os luxuosos predios da beira da praia tinham belos jardins, muito bem cuidados por mestres em jardinagem, com flores de cores variadas e relva bem aparada e macia.
Ratão chegou nervoso, conferiu quem tinha por perto, viu aquele bando de garotos observando o campeonato com cara de bobos e, como ginasta ou contorcionista, fez um movimento tão rápido quanto imperceptível.
Avançou em direção ao primeiro jardim que encontrou, abaixou-se, arriou o calção e antes que o porteiro do prédio pudesse sequer esboçar qualquer reação, aliviou-se ali mesmo.
Pôrra Mermão, tava precisando mandar esse barro… Agora tô levinho!
Olhamos uns para os outros, sem saber direito o que dizer, ou o que fazer.
O porteiro xingava a todos, sem exceção, tivemos que correr, porque até explicar que não conheciámos o maluco daria muito trabalho.
Paulo Proença era um personagem digno de história em quadrinho.
Certa vez combinei de fazer, junto com o cartunista e humorista Allan Sieber um livro só com essas histórias que mais parecem inventadas do que reais.
As histórias que não são contadas por pudor, ou por cuidado.
O surfe atual é tão asséptico, tão perigosamente sem graça e orientado para o público abobalhado que as virtudes que nos fizeram diferentes de todo resto, hoje nos envergonha.
Caminhamos para o mais absoluto enfado com esse monte de frases repetidas, sem humor, sem imaginação e sem a mínima espontaneidade.
O futebol tem o Paulo Cesar Caju, nós tínhamos Paulo Proença.

PS - Por sorte, e mérito do Roberto Moura que bravamente produziu com seus próprios recursos uma série ainda inédita na TV, temos essa bela entrevista do Paulo Proença disponível no Vimeo da Massangana Filmes.

Em quase 10 minutos, Rato nos faz rir como sempre com suas histórias impagáveis.



quarta-feira, janeiro 07, 2015

Surfando com Ernest Ranglin

 • 
At 82, legendary guitarist Ernest Ranglin still plays the ska, reggae and jazz that he's championed and helped perfect for more than half a century. Ranglin was a key figure in shaping the sounds of ska — influenced by New Orleans jazz and R&B — in Jamaica in the late 1950s. But most of the world wouldn't hear of ska until producer Chris Blackwell teamed Ranglin up with a Jamaican singer named Millie Small. Together, they recorded "My Boy Lollipop," a song that became a smash at the height of Beatlemania and helped put ska and Jamaican music on the map forever.
You've probably also heard Ranglin if you've seen the James Bond film Dr. No — particularly the scenes set in Jamaica. The effects of Ranglin's fluid and rhythmic playing on Jamaican music, from mento to reggae, are deep and long-lasting. But his work as a jazz artist is equally amazing, and here at the Tiny Desk he does a bit of everything, including music from his lyrical and wonderful album Bless Up. So watch as this humble, charming gentleman makes magic on guitar, with his talented young band Avila holding down the beat.
Set List
  • "Surfin"
  • "Jones Pen"
  • "Avila (Oscar's Song)"
  • Direto do NPR 





















Ernest Ranglin from jasapaal on Vimeo.

segunda-feira, janeiro 05, 2015

Olimpo derrotado

[Cobertura da primeira vitória do Gabriel Medina em 2014, o início de uma longa e inesquecível Jornada]

De olho em algo muito maior do que apenas uma porrada no lipe...


O que fica na memória é a sequência fantástica de nocautes: Mick, Taj e Parko – Pow, Pow, Pow! Isso, só na conta do Medina. Mineiro e Pupo derrubaram Owen, Kerr e Slater.Temos, numa rápida contagem, 15 títulos mundiais e uma infinidade de Top 5 entre esses senhores.

Quem diria, 17 anos atrás, que os brasileiros deixariam um rastro de destruição desse porte nas areias do Super Bank – na verdade na água – logo na primeira etapa do ano...
Apresso-me em responder, com fatos, quem sonhava com esse momento: Peterson Rosa e Neco Padaratz – e Adriano.

O campeão do Quiksilver Pro 2014 ainda não tinha feito três anos de idade quando Slater venceu o Bronco na final do então Billabong Pro de 1997. Neco Padaratz ficou na semi, também diante de Kelly.

Adriano, na sua estreia no WCT, arrancou um terceiro em 2006, com apenas 19 anos, gostou tanto que decidiu fazer três finais na Goldie: 2009, 2010 e 2012. Os números servem para mostrar como uma vitória se constrói. Ela começa bem antes de Gabriel acabar com a festa dos australianos e fincar a bandeira brasileira no lugar mais alto do pódio.



Troca de guarda

Na Nova ASP, a expressão americana “terra de oportunidades” ganha novo significado. A nova direção quer mudanças e nada melhor do que nós, reconhecidamente mercado emergente, para dar a partida nos novos negócios.

Gabriel nem precisou usar seus superpoderes para superar um por um dos seus adversários no caminho do título. Durante todo o tempo, Medina parecia mandar uma mensagem como esta: “Pessoal, esse é o meu jogo e eu jogo do jeito que eu quiser”. Cada onda foi surfada apenas com o esforço suficiente para abater o oponente, sem exageros, sem firulas. Como Curren fez tantas vezes antes e como Kelly aprendeu a fazer como ninguém. A carta na manga, a arma secreta, tem lugar e hora para ser usada.

Medina aprendeu isso.


Doces rivais

Quase duas semanas depois de impor a quinta derrota seguida ao onze vezes campeão mundial, Adriano publicou uma foto de uma onda do Slater no Instagram com a seguinte legenda: “Como usar o espaço da onda, mesmo ganhando do Kelly na Gold, é nessa foto que eu observo a perfeição, tenho conhecimento que falta muito ainda”. Sempre conectado, Kelly respondeu: “Você é um sujeito bacana, Adriano”.

Mineiro tem uma maneira diferente de abalar o Careca, alguma coisa balança as estruturas do camarada que antes parecia tão imune aos encantos alheios. Talvez esse seja o jeito de Adriano repetir aquele famoso “Eu te amo”, que Kelly disse para Andy antes da final do Pipe Masters de 2003.

Não há hoje, no Circuito Mundial, ninguém tão preparado, obstinado e combativo como Adriano de Souza. Até Slater reconhece isso.

Quando inverter o sentido tem outro significado


Se quer uma revolução, faça você mesmo

A grande notícia na página da (Nova) ASP antes de começar o Quik Pro era o retorno de Owen Wright. Fazia todo sentido, afinal, o camarada tinha se apresentado com candidato ao título mundial em 2011, fazendo três finais seguidas com Slater. Após passar toda a temporada de 2013 de molho, recuperando-se de uma contusão, Owen era uma aposta certa. Ou não?

Perguntem a Miguel Pupo...

Pupo é um rapaz calado, fala mansa, boa praça, sempre com sorriso no rosto quando cruza com um companheiro, lembra até um pouco outro goofy brasileiro famoso pela velocidade e estilo, Victor Ribas.

Victor também não chamava muita atenção até um belo dia disputar o título mundial com Occy e Taj e levar a decisão para o Hawaii. Até hoje, o terceiro lugar no ranking de 1999 ainda não foi superado [Nota do Autor: em 2014 a história muda].

Não estamos aqui para falar do Victor, contemporâneo do pai do Miguel, Wagner Pupo.
Estamos aqui para mostrar que nem toda força da indústria consegue ganhar uma bateria.

Na terceira fase do Quiksilver Pro, Miguel Pupo silenciosamente aniquilou Owen Wright, dando cabo das expectativas da máquina de comunicação da ASP. Pupo foi possivelmente o surfista brasileiro mais elogiado pela imprensa estrangeira nessa primeira etapa – o que não deixa de ser uma grande conquista. Cada vez mais, Miguel vai crescendo debaixo dos nossos narizes como grande surfista.

Perguntem a Josh Kerr...


O serrote e a marreta

Existem alguns detalhes fundamentais na extraordinária vitória do Medina.

Número 1: ele nunca foi o melhor surfista do evento, mas venceu cada um dos principais favoritos com uma precisão cirúrgica.

Número 2: Gabriel rompeu barreiras, primeiro goofy em dez anos a vencer na Gold Coast – Mick Lowe bateu Andy Irons numa final complicada em Rainbow Bay em 2004.

Número 3: essa é a primeira vez que iniciamos o ano na frente do ranking.

Número 4 (talvez o mais importante): Gabriel não se deu ao luxo de voar.

Existe um dado novo nessa história: a partir de agora, já não somos mais francoatiradores, todos os olhos estão apontados para Medina, Mineiro, Pupo e cia. Passamos de caçadores a caça. Se antes nós reclamávamos do julgamento, agora é a vez deles – vide comentários abaixo de toda e qualquer publicação sobre a primeira etapa. São muitas primeiras vezes, tudo novo.

Como disse muito bem Adriano, eles (gringos) já têm onde se espelhar, sobram as referências do que fazer e como fazer, enquanto para os brasileiros é sempre uma surpresa porque ninguém trilhou esse caminho ainda – de ganhar o título mundial.
Gabriel tem um retrospecto excelente contra Taj, Mick, Slater e Parko, o problema é outro brasileiro, chamado Adriano de Souza, que tem 4 x 0 em cima dele.

Imaginem se a disputa do título ficar entre esses dois camaradas? Num tempo de mudanças, de troca de guarda, tudo pode acontecer.


quarta-feira, dezembro 24, 2014

Adolfo e a curra do jornalismo tradicional




Adolfo Sá escreve muito.
Manja o sujeito que voce pede pra escrever uma frase e ele imprime 14 páginas de texto impecável ?
Voce não conhece ele porque o cabra vem de Sergipe e o mundo do surfe vai, no máximo, do extremo sul até a capital do Rio de Janeiro.
O nordeste é solenemente ignorado pelas revistas de surfe, salve raríssimas exceções que justificam a regra.
Adolfo tem um blog chamado Viva La Brasa que vai virar livro em breve e ninguém ao sul de Aracaju vai sequer saber que existiu.
Leio o Viva la Brasa desde 2006 ou 2007 avidamente, nada que se publica ali é raso, quando Adolfo resolve mergulhar num assunto, vai de garrafa e tudo - com trocadilho.
O Cartunista Allan Sieber foi quem me apresentou ao Adolfo, jornalista de guerrilha que me identifiquei na mesma hora.
Suas entrevistas são longas e curiosas como conversas de botequim e os perfis que Adolfo cisma de fazer de vez em quando tem um fôlego absurdo de pesquisa.
O que o Viva la Brasa publicava não tem nada parecido na nossa imprensa chapa branca tupiniquim.
Binho Nunes foi o escolhido para um dos extensos papos em 2009, as respostas são tão antológicas quanto as perguntas,

Adolfo - Você foi convidado para competir na etapa final do mundial, o Pipe Masters. Neste evento, Kelly Slater garantiu seu 4º título mundial ao vencer uma semifinal histórica contra Rob Machado, Mark Occhilupo começou sua volta por cima ao chegar na final depois de passar pelas triagens, e vc foi mais uma vez o azarão, roubando o show nas primeiras fases p/ terminar o evento em 9º lugar. Foi a única oportunidade que vc teve na vida de disputar o Masters, certo?

Binho - Sim, foi minha única oportunidade e assim que recebi o convite pulei dentro; em 95 eu estava morando no Hawaii, já tinha feito semifinal em Sunset e estava bem seguro, nunca achei Pipe perigoso porque nunca tinha parado pra pensar nas pedras afiadas que tem no fundo, coisas de moleque querendo mudar o mundo...
Então fui que fui, morava numa casa cheia de amigos, queria mudar os parâmetros do surf brasileiro, achava todo mundo careta e com um surf antiquado, então agarrei essa chance com unhas e dentes, surfei Pipe com prancha bem menor do que a dos caras que estavam na competição, fiquei orgulhoso por ter passado pelo Taylor Knox na primeira fase e pelo Jeff Booth na segunda, perdi pro Derek Ho que tirou um 10 e um 9... Mas saí da água como se tivesse ganho a bateria, o locutor me comparou ao Tom Carroll naquelas condições, pois dei uma rasgada embaixo do lip que a praia toda gritou quando desapareci e depois apareci no meio da espuma branca gigante... Tá certo que o locutor babou meu ovo me comparando ao Tom Carroll... Sei que estava bem longe das atuações dele e nunca vou chegar lá... Mas a comparação me abriu grandes portas no outside de Pipe, valeu locutor!

Ainda hoje fico arrepiado lendo uma entrevista dessas.
Adolfo também desenha suas histórias em quadrinho e adora escrever sobre musica.
Sou capaz de ficar horas passeando pelo Viva la Brasa, lendo e relendo os artigos - com títulos geniais, como Uma onda, Uma bunda, sobre os anúncios da Reef  -  que Adolfo escreve e mal posso esperar pelo seu livro.
Ainda me choca um pouco o fato do nordeste ser encarado como gueto aqui pela turma do sul maravilha.
Para os cariocas, passou de Campos é tudo paraíba e pros paulistas, qualquer um em cima do Rio já é baiano.
Pergunte das ondas nordestinas numa roda de amigos e ouça as gargalhadas soar forte e piadinhas aflorar sem cerimônia.
O desconhecimento é sem fim.
Possivelmente, a região nordeste é a que tem ondas de melhor qualidade em todo Brasil e nem incluo Fernando de Noronha nesse balaio.
Falo apenas dos fundos de pedra espalhados desde o Norte do Espírito Santo até lá em cima no Pará.
Sabendo que não há interesse nenhum nos seus surfistas e nas suas ondas, o Nordeste criou sua própria rede de comunicação e se auto-sustenta sem precisar de revistas, sites ou canais de TV caolhos.
Até mesmo as marcas que imperam no Nordeste vendem quase exclusivamente naquele mercado.
Pena que não haja curiosidade no que se passa nas praias de cima do litoral brasileiro.
Nossa primeira grande estrela de repercussão internacional veio lá da Paraíba, Fábio Gouveia, até hoje um dos surfistas mais carismáticos de toda história - e não me refiro exclusivamente ao Brasil.
Chico Padilha, outro paraíba de memória inesgotável e cultura bem acima da média, não cansa de nos alertar que toda hora surge um talento em algum canto de cima.
Carlos Burle, Jadson André, Eraldo Gueiros, Heitor Alves, Danilo Couto… Ia faltar espaço pra citar um pedacinho pequeno da história do surfe nordestino.
Por enquanto, fico feliz de saber que Adolfo Sá, cabra arretado de bom, vai lançar seu livro e desde já exijo que o leitor se esforce um bocadinho para achar o Viva la Brasa e invista algumas horas de leitura.
Satisfação garantida ou seu dinheiro de volta.



VIVA LA BRASA from Viva La Brasa on Vimeo.

sexta-feira, dezembro 05, 2014

Viagem pra dentro

A espera...


          Pilantragem suprema é citar textos longos.
Sempre andei acompanhado do Galeano, Eduardo Galeano, escritor uruguaio que escreve com sangue, suor e lagrimas.
Galeano gosta de contar histórias da America Latina, dos povos esquecidos, contos, fábulas, mitos e adora falar dos becos e esquinas que pouca gente vai se dar ao trabalho de conhecer.

Sua trilogia, Memória do fogo, foi premiada pelo Ministério da Cultura do Uruguai e recebeu o American Book Award (Washington University, EUA) em 1989, mas isso não tem a menor importância.
O que ele escreve, e principalmente o jeito dele escrever, é o que importa.
Numa edição especial de viagens - justamente numa época onde a aventura transformou-se num pacote simpático, suavemente parcelado em 12 vezes sem juros - não poderia faltar a leitura do Galeano para um tempo de mudanças.

Extraído do livro De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999), o trecho a seguir carrega mais de uma mensagem.
Ele nos ensina, ou melhor, relembra uma coisa que já ouvimos antes, de maneiras diferentes, a verdade está na viagem, não no porto.
A viagem começa quando voce decide.
Me solidarizo com o leitor que viaja sem sair do lugar.
Nem todo mundo tem uma pequena fortuna para gastar em passagem e hospedagem num barco luxuoso do outro lado do mundo.
Pra ser mais específico, nem todo mundo tem sequer a grainha que é preciso para ir até o norte do Peru para pegar onda.
Pipa ? Saquarema ? Maresias ? Noronha ?
Quem disse que faz falta ?

Essa revista que voce tem nas mãos ajuda a vender esses sonhos.
A TV martela ondas azuis e perfeitas como se fosse a tarefa mais simples da face da terra entrar num avião e aterrissar numa ilha paradisíaca.
Pra muita gente é mais fácil desprezar a própria praia do que aprender, ou re-aprender a gostar dela.
Esquecem-se que essa mesma praia que hoje desdenham foi aquela que os ensinou a amar o mar.
Foi nessa mesma água suja e ondas ruins que voce ficou em pé pela primeira vez na prancha e nunca mais quis saber de outra coisa.
Toda memória que temos das nossas praias não podem ser apagadas pela fantasia da onda perfeita.
Afinal de contas, nossa referência de onda perfeita foi estabelecida exatamente naquele dia mágico da nossa infância.
Aconteceu com voce em 1987, com seu amigo mais velho em 1975, com o Greg Noll em 1949 e com Medina em 2001.
E acontece todos dias, igualzinho, com as mesmas sensações e os mesmos cheiros e texturas.
Galeano escreve sobre isso.


A natureza se realiza em movimento e também nós, seus filhos, que somos o que somos e ao mesmo tempo somos o que fazemos para mudar o que somos. 
Como dizia Paulo Freire, o educador que morreu aprendendo: “Somos andando”. 
A verdade está na viagem, não no porto. 
Não há mais verdade do que a busca da verdade. 
Estamos condenados ao crime? 
Bem sabemos que nós bichos humanos andamos muito dedicados a devorar o próximo e a devastar o planeta, mas também sabemos que não estaríamos aqui se nossos remotos avós do paleolítico não tivessem sabido adaptar-se à natureza, da qual faziam parte, e não tivessem sido capazes de compartilhar o que colhiam e caçavam. 
Viva onde viva, viva como viva, viva quando viva, cada pessoa contém muitas pessoas possíveis e é o sistema de poder, que nada tem de eterno, que a cada dia convida para entrar em cena nossos habitantes mais safados, enquanto impede que os outros cresçam e os proíbe de aparecer. 
Embora estejamos malfeitos, ainda não estamos terminados; e é a aventura de mudar e de mudarmos que faz com que valha a pena esta piscadela que somos na história do universo, este fugaz calorzinho entre dois gelos.

Eduardo Galeano,

De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999)

terça-feira, novembro 04, 2014

sexta-feira, setembro 05, 2014

Uma Foto, Uma Musica

Foto do Russel Ord
[Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. 
Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. 
Quem sou eu no mundo? 
Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. 
Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. 
Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. 
Ainda que seja mentira.]