sexta-feira, julho 03, 2015

Acorda, James Jones!

[Texto de Maio de 2014, publicado nas Revistas Hardcore e Surf Portugal]
Itaúna vista e fotografada pelo Smorigo


Acorda James Jones que hoje tá enorme.
Foi o jeito que Bolonha arrumou pra me acordar na minha primeira vez competindo em Saquarema.
Num distante 1988, todos éramos jovens suficiente para dormir em qualquer canto, no meu caso, em cima das capas de prancha, embaixo duma escada, tinha que dar sorte.
Eu já tinha estado em Saquarema antes, quase 3 horas num ônibus, 250 paradas até finalmente chegar na cidade, depois se vira pra chegar na praia.
A praia é Itaúna, a lendária onda que os surfistas mais velhos se referem como a melhor onda do Brasil, é tambem a mais forte, mais traiçoeira, mais perigosa.
Meus piores pesadelos envolviam Itaúna grande e campeonatos.
Sentamos na areia, eu e Marcos, na nossa frente as maiores ondas que já tínhamos visto.
Afinal eram verdade as historias que os surfistas mais velhos nos contavam, depois de sumir por algum tempo e surgir com um sorriso estranho no canto da boca, olhos vermelhíssimos e um cheiro que não parecia com nada que estávamos acostumados em casa - seria algo de comer ?
Cada vez que eram repetidos, os relatos iam ganhando drama e pitadas de horror para acentuar a coragem dos protagonistas e deixar a garotada de boca aberta.
Uma delas falava de um mar clássico, nos idos de 75, ou 76, ninguém lembrava direito a data. O que eles não esqueciam, e cada vez que mencionavam data e local os olhares se transformavam, eram as ondas gigantes e perfeitas.
Teve gente que tentou entrar e não conseguiu e também teve gente que nem ousava pensar em varar a arrebentação.
Rico de Souza, que já era Rico de Souza nessa época, uma autêntica celebridade do nosso jovem esporte, enfrentou as bombas com uma 8’6’’, ficou em terceiro.
Cadinho, Ricardo Meyer, também conhecido pela sigla RK que fazia os melhores skates do país ainda nos anos 70, ficou em segundo, possivelmente surrando com a sua Bill Stonebraker 8’6’’ (essa prancha quebrou ao meio em outro dia épico, ali perto de Saquá, na laje de Jaconé, 10 pés!).
Betão, o extraordinário Betão, surfou nesse dia com uma prancha nove pés (9’4’’) pra ganhar o primeiro Festival de Saquarema.
Se antes desse campeonato Betão já era temido, respeitado e admirado por todos, depois de ganhar justamente esse evento, foi alçado a categoria de lenda viva.
Lá estava eu, sentadinho nas areias de Itaúna, quase 20 anos depois do Festival de 1975, testemunhando diante dos meus próprios olhos uma final entre Daniel Friedman e Picuruta Salazar em ondas fantásticas.
Daniel naquela galhardia de sempre, impecável em cima da prancha, sem um movimento desajeitado, sem excessos, numa linha pura e atemporal.
Enquanto isso, Picuruta atacava as paredes com um jeito diferente e moderno, também elegante, mas também selvagem e agressivo.
Me recordo duma foto do Cauli, se bobear nessa mesmo ano, uma foto pequena, preto e branco, a legenda mencionava algo referente a maior onda já fotografada no Brasil - uma esquerda gigantesca, cascuda, ameaçadora.
Tudo isso veio à tona quando Bolonha me acordou naquele distante e cinzento dia em Saquarema, Acorda James Jones que hoje tá enorme!
Acordei, respirei fundo, preparei a prancha e fui enfrentar meus demônios. Passei em segundo lugar, deixando dois camaradas que se consideravam surfistas de onda grande para trás.
Tenho enorme dificuldade de escrever sobre meu passado de competidor, talvez por sempre identificar um exagero nas auto referências dos amigos colunistas. Ou por ter consciência da minha desimportância.
Esse texto foi provocado por uma breve estadia em Saquarema, motivado pelo Quiksilver Prime.
Nós não temos Indonésia, nem Havaí, nem Taiti.
Não temos um lugar especial que é reconhecido em todo planeta como referência de onda boa.
O que nós temos, é Saquarema, onde o tempo não passa, onde o tempo cisma de voltar repetidamente, ora para assombrar, ora para te alegrar.

Otavio Pacheco e Itaúna, um caso de amor profundo...


terça-feira, junho 16, 2015

Entre Medina e Carlin

Oráculo



O comediante americano George Carlin resolveu provocar o moralismo americano em 1972 e inventou uma piada no seu show que chamava-se, Sete palavras que você nunca pode dizer na Televisão.
Ele simplesmente enumerava as sete e as declamava, desafiador, em ordem, shit, piss, fuck, cunt, cocksucker, motherfucker e tits.

Nem é preciso traduzir, pois não ?

Carlin, um gênio do humor, não perdia uma única oportunidade de listar as palavras nos seus shows, no rádio e onde quer que fosse.

Não que houvesse de fato uma lista de palavras proibidas na época, aquilo era apenas uma brincadeira com o puritanismo da sociedade americana, no entanto o caso foi parar na suprema corte dos Estados Unidos porque um pai ficou indignado quando seu filho de 15 ouviu as palavras em rede nacional na radio.

O caso ficou famoso e foi responsável pelas regras que ainda hoje, em 2015, vigoram nas transmissões de radio e TV dos 50 estados dos EUA - entre 6 da matina e 10 da noite, nada de palavrão.

Consta que Fuck é pronunciado 506 vezes no filme O Lobo de Wall Street (5 indicações ao Oscar, inclusive de roteiro e uma batelada de prêmios) do Martin Scorcese.

A expressão Fuck, que pode ser verbo, substantivo ou mera vírgula, dependendo da situação já não assusta tanto assim o grande público.
O vice presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, sussurrou no ouvido de vossa excelência o senhor Obama em rede nacional durante a assinatura do projeto de reformas para saúde, It’s a big fucking deal…

Um frio na espinha foi sentido de norte a sul - mais no sul.

Pra nossa sorte, as transmissões dos campeonatos de surfe não são assim tão rígidas, ou pelo menos não deveriam ser.


Eu queria agradecer aos meus 6628371 patrocinadores...


Quando Peter Mel resolveu entrevistar Gabriel Medina poucos minutos depois da polemica derrota para o anão de jardim do tour, Glen Hall, sabia dos riscos.

Qualquer sujeito sensato que trabalha com esportes tem consciência de quanto pode ser explosiva uma declaração com os nervos a flor da pele.

Não faz muito tempo, ainda em março desse ano, o sueco Zlatan Ibrahimovic, uma das maiores estrelas do futebol mundial, declarou publicamente que a França era um país de merda e que não merecia o seu time, PSG (Paris Saint Germain).
PSG tinha perdido por 3 a 2 para o Bordeaux e Ibra estava furioso - ele joga na França!

O leitor mais exaltado reclama que os exemplos não são os melhores.

Existem melhores, vejam Slater, Fanning, ou Bobby Martinez…

Medina foi provocado e caiu na armadilha fácil de dizer o que pensava. As escolhas do Kieran Perrow ganharam vaia coletiva na internet, não conheço uma pessoa que não queria ver o Quik Pro nas rampinhas de Duranbah.

Até aí, morreu o Neves…

Criticar as decisões do todo poderoso Comissário geral da entidade não me parece nada de tão grave.
A coisa mais natural do mundo é um jogador questionar os juízes, até mesmo o técnico ou presidente. Nem por isso merece ser punido, ou criticado.

Nosso Ayrton Senna, sempre citado como exemplo de esportista, desancava o presidente da FIA, Jean-Marie Balestre sem cerimonia.
Em 1989, depois de desclassificado injustamente, Senna chamou Balestre de desonesto pra baixo.

Mais uma vez ainda em 2015, Serena Willians entrou em parafuso quando perdeu uma partida no torneio Hopman Cup, pertinho de Snnapers, lá na Australia.

Mesmo em eventos extremamente civilizados e aborrecidos como Cricket, os caras perdem a cabeça.

Dito isso, percebam que Medina nunca se descontrolou diante do microfone.
Ele apenas tentou ser um pouco mais expontâneo do que o esperado e entrou pela cano pela absoluta falta de traquejo da equipe de transmissão da WSL.

Peter Mel estava entrevistando um campeão mundial!
Querem repetir a frase acima 3 vezes, por favor ?
Voce não tira o microfone do campeão mundial quando ele está falando, seja o que for falar - é uma questão de hierarquia e de bom senso.

Quando o campeão fala, nós ouvimos, pronto.

A dupla de patetas na transmissão ficou sem ação quando entraram de supetão no ar, fingiram que nada aconteceu e chamaram a propaganda…

Mais uma prova da alarmante falta de tato da WSL em lidar com o assunto.
O cara tava fulo e todos esperávamos pela bomba.
Chega de bons garotos e discursos decorados.
O surfe, e todos esportes, precisam é de um bom conflito para acirrar as disputas e apimentar o jogo.

Dana White, melhor caso de promotor de eventos bem sucedido da atualidade, incentiva seus lutadores a vociferar contra os oponentes.

O esporte se alimenta disso, atrito!

O público se identifica com os ídolos nas suas frustrações da mesma forma que se projeta nas conquistas. 

O que fizeram com Medina foi molecagem, coisa de amadores. 
Gente que ainda não está preparada pra lidar com algo maior do que já tem nas mãos.

Com a nova direção da WSL, não teremos essa faísca que tanto faz falta ao circuito, pense em Kelly versus Andy incendiando o circo.
Ao menor sinal de fogo, os caras vão pegar extintor, chamar bombeiros e chamar o comercial da Samsung… 


segunda-feira, maio 04, 2015

Molecagem

[Texto de 26.11.2014]

Quem é o Vira-lata ?


          Estamos em dezembro de 2014, um ano difícil para a grande maioria dos leitores dessa revista.

Perdemos uma Copa do mundo em casa.

Uma Copa ganha antecipadamente várias vezes pelos gênios do futebol.

Tivemos uma eleição apertada e disputada como um clássico do brasileirão.

O discurso raivoso aflorou de tudo quanto era buraco.

Sujeito caminhava tranquilo pela rua e de repente saía um iradinho da primeira esquina.

O surfista tinha uma fuga, Medina liderou o circuito mundial de ponta a ponta, exceto por um percalço chamado Travis Logie, justo no Rio de janeiro.

Quando esse texto chegar até você, é possível que já tenhamos um campeão mundial.

O tricolor Nelson Rodrigues enxergava de olhos fechados


Caso contrário, nosso afamado complexo de vira-latas, tão alardeado por Nelson Rodrigues, virá a tona uma vez vez mais.

Da mesma maneira que colocaram a culpa do vexame diante da seleção alemã no fato jogador ter nascido no Brasil, ou da política brasileira ser do jeito que é porque, afinal, somos todos brasileiros - a desculpa de não termos um título é a uma sina, uma marca.

Invertemos o mérito e o transformamos em vergonha.
Faz tempo que é assim.

Quando ainda não tínhamos títulos no futebol, o cronista Nelson Rodrigues destrinchava nosso complexo de inferioridade.

Era exatamente como hoje.

Tudo que vinha de fora era bom - bom não, melhor.

Toda e qualquer coisa que não fosse feita no Brasil era melhor.

Homens e produtos estrangeiros eram superiores.

Quantas pessoas voce conhece hoje, dezembro de 2014, que ainda pensam dessa mesma forma ?

Quase 60 anos depois de criada a expressão complexo de vira-latas…

Um título do Medina não será suficiente para aplacar a vergonha que se esconde atrás de cada assustado que sonha com um passaporte seja qual for, contanto que não traga Brasileiro na primeira página.

Os aviltados gritarão bem alto, Tambem, olha esse povo que nos deram… Brasileiro aceita tudo.

Chile, 1962, sem legenda


Recorro então ao texto que Nelson Rodrigues escreveu quando ganhamos não o primeiro título mundial, na Copa de 1958, mas o segundo, na Copa do Chile em 1962.

Quando triunfamos em 58 decretou o fim da nossa permanente sensação de subalterno, passados apenas 4 anos essa irresistível força bovina que nos arremessa pra baixo da mesa voltava com a força dos aflitos.

Até mesmo os próprios europeus, à semelhança dos australianos e americanos do mundinho do surfe, já acreditavam na nossa condição secundária.

Percebam como é parecido o momento do surfe em 2014 e o futebol em 1962.

Mesmo como Fabinho Gouveia, Victor Ribas, Teco, Neco, Burle, Resende, Maya, Phil, mesmo com Yago e Lucas Silveira ainda tem gente que aponta com um rasgo de embaraço, Coitados, são brasileiros…

O descaso não é deles, é nosso.

Nelson Rodrigues reconhecia um pessimista pelo cheiro, foi pra eles que publicou na revista Fatos & Fotos em 1962 esse texto reproduzido abaixo.

[Após quatro anos de meditação sobre o nosso futebol, o europeu desembarca no Chile. 
Vinha certo, certo, da vitória. 
Havia, porém, em todos os seus cálculos, um equívoco pequenino e fatal. 
De fato, ele viria a apurar que o forte do Brasil não é tanto o futebol, mas o homem. 
Jogado por outro homem o mesmíssimo futebol, seria o desastre. Eis o patético da questão: — a Europa podia imitar o nosso jogo e nunca a nossa qualidade humana. 
Jamais, em toda a experiência do Chile, o tcheco ou o inglês entendeu os nossos patrícios. 
Para nos vencer, o alemão ou o suíço teria de passar várias encarnações aqui. 
Teria que nascer em Vila Isabel, ou Vaz Lobo. 
Precisaria ser camelô no largo da Carioca. 
Precisaria de toda uma vivência de botecos, de gafieira, de cachaça, de malandragem geral.
Aí está: — no Velho Mundo os sujeitos se parecem, como soldadinhos de chumbo. 
A dessemelhança que possa existir de um tcheco para um belga, ou um suíço, é de feitio do terno ou do nariz. Mas o brasileiro não se parece com ninguém, nem com os sul-americanos. 
Repito: o brasileiro é uma nova experiência humana. 
O homem do Brasil entra na história com um elemento inédito, revolucionário e criador: a molecagem.]

A molecagem não é o jeitinho brasileiro de não fazer as coisas, pelo contrário, é o jeito de fazer as coisas.
Nutro um certo desprezo pelos deslumbrados com o que vem de fora.
Pra ficar somente no futebol, vou abusar do recurso de citar e, golpe baixo, encerro com Carlos Drummond de Andrade.

O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé.

Quero crer que difícil não é fazer o que Medina fez nesse ano, mas fazer do jeito que Gabriel fez…

Todo grande texto nasce desses momentos de silencio e solidão





quinta-feira, abril 23, 2015

Nova Era


As oito horas de surfe mais eletrizantes que já houve



Praia de Pipeline, 13:33 do dia 19.12.2014

Charles Medina olha fixo pro mar

Em volta dele, todos gritam é campeão, se mexem sem saber onde colocar os braços, chamam seu nome sem parar, surgem câmeras de todos lados, a confusão é total e Charlão (como os mais próximos carinhosamente o chamam) olha fixo pro mar.

Falta menos de 40 segundos pra terminar a bateria entre Mick Fanning e Alejo Muniz, a chance do australiano virar é inexistente, mas Charles olha fixo pro mar.
Ele já viu muitas baterias resolvidas nos 30 segundos finais e não quer correr esse risco.
O jogo só termina quando o juiz apita.
Com essa derrota do Fanning, Gabriel é campeão mundial, encerra-se a corrida, o drama chega ao fim.
Deus sabe o que passa na cabeça do camarada que viveu a disputa tão intensamente como ele.
De repente, junto com a contagem regressiva, Charles corre alucinadamente pro mar e mergulha de roupa e tudo.
Todo mundo em casa ou na praia também tem vontade de sair correndo enlouquecidamente.

Esse momento traduz a vontade que temos de simbolicamente abraçar Pipeline, a praia que nos deu o primeiro campeão mundial brasileiro.
Debaixo d’água é tudo silencioso, Charles precisa desse segundo de silencio.
Dizem que a água do mar lava tudo.
Lava as nossas mágoas, nossas dores, nossas tristezas.
A água do mar purifica.
Esse mergulho diz tanto sobre o título do Medina…
Foram 11 etapas, algumas vitórias, algumas derrotas, lágrimas de felicidade, poucas de decepção, é necessario mergulhar fundo.
Quando Charlão ressurge, já tem os dois braços apontados pro céu. O rosto sempre tão sisudo, sorri um sorriso largo.
O menino ganhou é hora de ir abraça-lo.

Uma breve historia do tempo

A ASP tinha tarefa ingrata, apenas dois dias para terminar o Pipe Masters, ondulação enfraquecendo, um título mundial para ser decidido e 27 baterias ainda por fazer.

Kieren Perrow, comissário e homem responsável pelas decisões mais importantes da entidade (ASP) durante o ano resolve realizar tudo em dia só.

No Havaí não é permitido campeonatos de surfe depois das 16:00 horas, tampouco começar antes das 8 da manhã.

Perrow faz as contas para encaixar 27 baterias em 8 horas.

Nunca aconteceu na história da ASP um dia como esse que vai se revelar.

Baterias simultâneas, redução do tempo, alteração das regras, sem a possibilidade de recomeçar - sem descanso.

Foram 10 dias de uma espera melancólica por ondas decentes.
Uma triagem com ondas boas, um primeiro dia digno da história do Pipe Masters e uma segunda fase atirada ao mar em condições adversas.

Era chegado o dia final.

Havia mais matematica envolvida.

Gabriel Medina seria campeão mundial se chegasse até a final, isso era claro.
Slater tinha alguma chance, voces sabem, mínima.
Fanning fungava no cangote.

O grande temor da torcida brasileira era o backdoor, supostamente ferramenta de vantagem dos adversários do Medina e nosso (dele) calcanhar de Aquiles.

Pois o dia 19 amanheceu com ondas melhores justamente para o Backdoor.
Problema nosso.



Voce já segue o Alejo ?

A última etapa do ano tem várias camadas diferentes.

O foco principal é na corrida ao título entre 3 surfistas, os outros 33 tem preocupações diferentes.
Alguns estão ali atrás de sobrevivência, motivos de sobra para atrapalhar qualquer um dos candidatos.

Vejam Alejo Muniz, 24 anos, décimo do ranking em 2011, prestes a se despedir do WCT/WSL 2015 depois de uma temporada negra, sem passar uma única vez pela  terceira fase, precisando ganhar o Pipe Masters para alcançar a qualificação.

Alejo sabia que sendo um dos surfistas com menos pontos enfrentaria os primeiros do ranking e poderia eventualmente ajudar seu amigo Gabriel Medina na luta pelo caneco.

Eis que os sonhos tornam-se realidade e, na terceira fase, Alejo enfrenta o invencível Slater em Pipe, especialidade do Careca.

Sabe quantas vezes o Slater já perdeu assim tão cedo em Pipe ?
Uma vez, em 1997, para o Johnny Boy Gomes - uma única e solitária vez, para um especialista em Pipeline.

Alejo, sem saber que era impossível, foi lá ganhou do Kelly Slater do jeito que gostamos, no ultimo minuto, tubaço no Backdoor.
Menos um na disputa com Medina.

Como nada tem dado muito certo pro Alejo nas competições em 2014, na quarta fase ele fez o total de 1.27 e foi pra repescagem…
O destino, esse velho sacana e sem cueca, colocou logo quem na repescagem junto do Alejo ?
Mick Fanning, último obstáculo entre Medina e a nossa Copa do Mundo do surfe.

Vejam como são as coisas, a sorte anda mesmo ao lado dos campeões.

Contra Alejo, Fanning foi incapaz de fazer uma nota superior a 2 (1.27 + 1.57 = 2.84)!
Na bateria seguinte, quartas de final, Alejo seria eliminado por Ace Buchan e daria adeus ao WCT (por enquanto) mas seria o personagem mais importante depois do Medina e Julian Wilson nesse dia inesquecível.

Siga o Alejo. 

Pausa para ouvir Julian Wilson

Digam o que quiser, temos que respeitar esse cara.

Antes do Pipe Masters, Julian não tinha chegado alem da terceira fase em nenhum campeonato nessa temporada, exceto por Bells Beach e precisava de um milagre para se classificar pelo ranking do WCT (já estava garantido pelo WQS).

Outro milagre o coroaria com o mais cobiçado título depois do mundial, o Triple Crown.
Depois de competir 6 vezes no mesmo dia e ficar na água por 3 baterias seguidas, Julian ganhou o Pipe Masters - há controvérsias…

Penso que devemos ouvi-lo.

Acho que eu estava realmente determinado a terminar o ano com uma campanha decente. Na minha primeira bateria fiz uma soma total de 1,5, na segunda fiz três ou quatro pontos, na quarta consegui seis nas minhas duas ondas, era uma evolução constante e eu continuei persistindo. 
É frustrante fazer notas baixas. 
Você passa a bateria, que é ótimo, mas é difícil de conquistar a auto confiança quando você não faz uma boa apresentação. Então finalmente achei uma onda boa na quinta fase e comecei a me divertir.
Gabriel tinha tido um dia incrível e estávamos os dois sentados lá fora, curtindo. Não houve disputa, sem nada. Ele preferia as esquerdas, de repente ele teve pegou aquela onda pro Backdoor e fez um 10. Foi quando essa última serie veio. Podíamos ver que era tinha um ângulo incrível. A segunda era maior e Gabe tinha prioridade. Ele disse: 'Eu quero a segunda ", por isso, fui na direita e ele pegou a maior pra esquerda, e foi incrível.

Abusado

Diante do desafio de enfrentar Dusty Payne na terceira fase, debaixo de uma pressão que dobraria o mais experiente dos competidores, Medina esperou pela onda da série e fez o de sempre - dominou.
A ameaça da derrota tem rondado o rapaz o tempo todo, desde a primeira etapa, Medina dá de ombros e segue em frente.
Os analistas passaram o ano inteiro tentando revelar o ponto fraco do Medina e campeonato após campeonato ele nos provava que o ponto fraco simplesmente não existia.
5 minutos finais da bateria contra Dusty, Medina tem a prioridade e o havaiano rema certo e firme numa onda para o Backdoor.
Gabriel decide ir, protegendo sua prioridade, desequilibra-se um pouco e mete pra dentro da direita que parece ser rápida demais para ser varada - ainda mais de back-side.
A praia explode quando Medina sai do tubo, braços pra cima.
Peter Mel, Big Wave rider, reportando direto da água, diz que podia perceber a aura de determinação na remada de volta do brasileiro.
A praia de Pipe transforma-se num estádio de futebol, cheia de bandeiras, de cantos de torcida, mãos esmurrando o ar.
Dusty está fora, Medina faz a melhor média da rodada.
Quarta fase, Gabriel x Toledo x Kerr, Filipe lidera, Medina precisa de um 8 baixo.
Faltando menos de 2 minutos, mais uma vez Medina encara sua suposta fraqueza, desta vez um tubo ainda mais profundo e difícil pro Backdoor - 8.84.
Na falta de adjetivos, penso no título do livro do Caco Barcellos - Abusado.
Abusado como Slater em 1992, campeão mundial e Pipe Master.
Abusado o suficiente para sair do mar durante sua bateria nas quartas, celebrar o título com a torcida ensandecida, conceder a protocolar entrevista como campeão mundial, abraçar e ser abraçado pelo amigos e familiares, retornar pra água e ainda vencer um aturdido Filipinho.
Abusado em arrancar uma nota 10 na final do Pipe Masters - para o Backdoor!
Senhoras e senhores, bem vindos à nova era.
Os estrangeiros são os outros.



5 Momentos mágicos do Pipe Masters

Slater volta



Contra Reef McIntosh, quando tudo parecia perdido, Kelly Slater pega duas ondas milagrosas num mar impossível


Jadson “Houdini” Andre 




No dia mais perigoso e tenebroso do Pipe Master, Jadson fez mágica e subitamente transformou uma onda fechada num 9.37 - seria um 10 fácil.


Alejo Brilha



Talvez a mais perfeita onda de todo evento, uma direita linda elimina Slater e deixa o caminho livre para Medina

Tom Carroll ainda reina em Pipe



Um retorno mais que esperado, Tom Carroll apimentou ainda mais a sua relação com Pipe e nos lembrou que, apesar dos 52 anos, quem manda ali é ele.


Gabriel Medina e Backdoor



O início de uma grande relação…





segunda-feira, março 23, 2015

Janela

[Texto recuperado do HD de 2002, quando ainda colaborava com o então tímido site waves - ainda lá está, no mesmo lugar.
Revisitar velhos escritos dá um misto de orgulho e vergonha simultaneamente.
Orgulho de enxergar determinadas coisas antes e vergonha de usar tantas conjunções e recursos baratos de linguagem que hoje evito com todas forças.
Me admiro da incrível coincidência de encontrar Galeano mais uma vez num texto escrito 12 anos antes desse último publicado aqui no Goibada.]




Tenho a incômoda capacidade de enxergar surfe em tudo quanto é canto.
Na entrevista do escritor uruguaio Eduardo Galeano no jornal O Globo de Domingo, 21/07/2002, reparei numa frase que cai tão bem na nossa cultura surfe que inspirou esse texto.


O que alguns bobos acham que é defeito acaba sendo a nossa maior virtude.

Primeiro me veio à cabeça o Peterson, talvez o surfista mais incompreendido do circuito WCT, de uma campanha avassaladora, só pra usar um termo muito em moda, ignorando Slaters e Fannings afora, de costas e de frente, Backside e frontside pros mais maldosos.

Logo em seguida, não sei porque diabos, acometeu-me um vídeo novo chamado Momentum - under the influence, espécie de versão atualiazada do primeiro Momentum, onde as estrelas tem todas menos de 23 anos e, supostamente, os melhores do mundo.

No que resta de minha memória, 
comprei o Momentum no Havaí, em 92, quem recomendou foi o Sérgio Noronha, que assistia 200 vezes a fita por dia.
O impacto foi grande, todo mundo conhece e ninguem mais aguenta tanta gente lembrando do Slater, Machado, Dorian, Kalani, Knox embalados pelo sonzinho bacana e pra cima do Bad Religion, Nofx, Pennywise e Gangrena Gazosa, opa!, brincadeira...

Uns 30 anos depois, lançaram até aqui no Brasil, sem direito ao secret-video, umas das sequências mais legais do VHS, mas voltemos a 2002....

A versão 3.0 do ganso de ovos de ouro do Taylor Steele, sob a influência, não nos revela sequer um brasileirinho.

Nem umzinho...




Admirador dos vídeos da rapaziada que tem no emblema o nome Poor specimen, não tenho dificuldade nenhuma em elogiar todos 23 títulos da Família Steele.

Não o faço por impaciência.

Reconheço, entretanto, que não deve haver qualquer preconceito nem desprezo da parte dos produtores para cima dos meus conterrâneos - nem poderia - taí a prova no premiado filme de Skate, Hallowed Ground, encomendado pela mais nova gigante da Surfwear, recém comprada pela Nike pela bagatela especulada de 140.000.000 milhões de Verdinhas, sim senhores, a Hurley, filhote de Bob Hurley, ex representante da Billabong nos E.U.A.

O Brasil, e os brasileiros, são destaque no Hallowed Ground, filmado em 16 mm, com direito a incursões na trilha e tudo - talvez porque fica difícil ignorar os títulos do Bob Burnquist, patrocinado da Hurley/Nike e cia Ltda.

Mas os carrinhos não são, nem de longe, assunto de meu interesse, portanto voltemos ao surfe.

Concluindo então que não há preconceito, existe até (pasmem!) admiração, como explicar a ausência absoluta de surfistas de passaporte verde entre os melhores do mundo com menos de 23 anos, segundo Taylor Steele ?

De cabeça, sem coçar muito a careca, Trekinho, Raoni, Pedro Henrique, Pigmeu, Léo Neves, Mineirinho, Marco Polo...

A lista é maior, tão grande quanto a injustiça.

Devo substituir os gringos palhinha por qualquer um da lista acima ?

Fica o Taj, Bruce e Andy, Dean, C.J e Damien, Rasta, Fanning e Joel.

O resto roda.

Sobra então pro Rafael Mellin, solitário guerrilheiro/video-maker, a árdua e agradável tarefa de revelar ao mundo, começando pelo Brasil, o talento não reconhecido (por enquanto!) dessa gente bronzeada tentando mostrar seu valor.

Que venha o Lombrô 3, pra saciar a sede de sangue novo.



PS - Voce, meu caro leitor, vai comprar ou copiar o vídeo quando assistir na casa do amigo ? e por que ?

sábado, março 21, 2015

Viagem pra dentro

[Texto resgatado de 2014]
Na legenda original da Surfer, O Templo do Entusiasmo - Foto do Pai de todos, Ron Stoner




Pilantragem suprema é citar textos longos.
Sempre andei acompanhado do Galeano, Eduardo Galeano, escritor uruguaio que escreve com sangue, suor e lagrimas.
Galeano gosta de contar histórias da America Latina, dos povos esquecidos, contos, fábulas, mitos e adora falar dos becos e esquinas que pouca gente vai se dar ao trabalho de conhecer.

Sua trilogia, Memória do fogo, foi premiada pelo Ministério da Cultura do Uruguai e recebeu o American Book Award (Washington University, EUA) em 1989, mas isso não tem a menor importância.
O que ele escreve, e principalmente o jeito dele escrever, é o que importa.
Numa edição especial de viagens - justamente numa época onde a aventura transformou-se num pacote simpático, suavemente parcelado em 12 vezes sem juros - não poderia faltar a leitura do Galeano para um tempo de mudanças.

Extraído do livro De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999), o trecho a seguir carrega mais de uma mensagem.
Ele nos ensina, ou melhor, relembra uma coisa que já ouvimos antes, de maneiras diferentes, a verdade está na viagem, não no porto.
A viagem começa quando voce decide.

Lembra de quando toda onda era assim ? Foto - Ron Stoner

Me solidarizo com o leitor que viaja sem sair do lugar.
Nem todo mundo tem uma pequena fortuna para gastar em passagem e hospedagem num barco luxuoso do outro lado do mundo.
Pra ser mais específico, nem todo mundo tem sequer a graninha que é preciso para ir até o norte do Peru para pegar onda.
Pipa ? Saquarema ? Maresias ? Noronha ?
Quem disse que faz falta ?

Essa revista que voce tem nas mãos ajuda a vender esses sonhos.
A TV martela ondas azuis e perfeitas como se fosse a tarefa mais simples da face da terra entrar num avião e aterrissar numa ilha paradisíaca.
Pra muita gente é mais fácil desprezar a própria praia do que aprender, ou re-aprender a gostar dela.
Esquecem-se que essa mesma praia que hoje desdenham foi aquela que os ensinou a amar o mar.
Foi nessa mesma água suja e ondas ruins que voce ficou em pé pela primeira vez na prancha e nunca mais quis saber de outra coisa.
Toda memória que temos das nossas praias não podem ser apagadas pela fantasia da onda perfeita.
Afinal de contas, nossa referência de onda perfeita foi estabelecida exatamente naquele dia mágico da nossa infância.
Aconteceu com voce em 1987, com seu amigo mais velho em 1975, com o Greg Noll em 1949 e com Medina em 2001.
E acontece todos dias, igualzinho, com as mesmas sensações e os mesmos cheiros e texturas.
Galeano escreve sobre isso.



A natureza se realiza em movimento e também nós, seus filhos, que somos o que somos e ao mesmo tempo somos o que fazemos para mudar o que somos. 
Como dizia Paulo Freire, o educador que morreu aprendendo: “Somos andando”. 
A verdade está na viagem, não no porto. 
Não há mais verdade do que a busca da verdade. 
Estamos condenados ao crime? 
Bem sabemos que nós bichos humanos andamos muito dedicados a devorar o próximo e a devastar o planeta, mas também sabemos que não estaríamos aqui se nossos remotos avós do paleolítico não tivessem sabido adaptar-se à natureza, da qual faziam parte, e não tivessem sido capazes de compartilhar o que colhiam e caçavam. 
Viva onde viva, viva como viva, viva quando viva, cada pessoa contém muitas pessoas possíveis e é o sistema de poder, que nada tem de eterno, que a cada dia convida para entrar em cena nossos habitantes mais safados, enquanto impede que os outros cresçam e os proíbe de aparecer. 
Embora estejamos malfeitos, ainda não estamos terminados; e é a aventura de mudar e de mudarmos que faz com que valha a pena esta piscadela que somos na história do universo, este fugaz calorzinho entre dois gelos.

Eduardo Galeano,

De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999)

terça-feira, fevereiro 17, 2015

Silencio eloquente

Carlos Mudinho, um Homem religioso que merece a devoção dos que vivem o surfe

As mãos dele falam tanto quanto os seus olhos.
Cada palavra que ele quer dizer é explicada com uma quantidade de recursos fantástica, exatamente igual ao jeito dele pegar onda.
Os movimentos dos braços indicam distancias, caminhos e são sempre acompanhados de uma absurda agilidade com quadril e as pernas - absurdo para um senhor de 60 anos.
Carlos Mudinho é um dos meus surfistas preferidos, dentro e fora d’água.


Nem todos conhecem ou sequer ouviram falar do Mudinho, quem o viu surfar não esquece jamais.
Mudinho tem a classe dos grandes de toda história.
Descende direto da linhagem que passa por Phil Edwards, Mickey Dora, Barry Kanaiapuni, Curren e John John.
Alguem já escreveu que elegância é economia de gestos e Carlos Mudinho surfando representa como ninguem essa frase.
A surdez nunca foi obstáculo, aprendeu a ler lábios - e ondas.
Não há um instante de silêncio ao lado dele, os sons jorram numa explosão eloquente, se faz tão claro quanto um apresentador de jornal das oito.
A expressão Mestre tem mais de um sentido quando penso no Carlos Mudinho - Profissão e vocação.


Pura Categoria


Os surfistas brasileiros não são especialmente famosos pelo estilo, mas sim, temos alguns exemplos que não fariam feio no quesito graça em cima de uma prancha.
Rapidamente, sem pensar muito, relembrem comigo, Fabio Gouveia, Picuruta, Pitzalis, Castejá e Daniel, uma lista pequena dos mais influentes e estilosos prancheiros da nossa curta história.
Gente que, por obra divina ou muito trabalho duro pra conter os ímpetos, fez a escolha da beleza antes da objetividade.
Hoje é justamente o inverso, objetividade antes da beleza, ou seja, a grande maioria que começa a surfar prefere aprender logo a fazer uma penca de manobras, voar e rodopiar, sem dar a menor bola pro estilo.
Mudinho unia (ainda une!) funcionalidade e estética.

Não vi a fase de ouro dele, final dos anos 60 e início dos anos 70, fui conhece-lo apenas nos 80, quando os pranchões tiveram um renascimento e foi criado um circuito brasileiro, e mundial, de pranchão - paralelo ao de surfe profissional.
Enquanto a maioria da macacada tentava surfar com uma 9’6’’ como se estivesse de 5’10’’, Mudinho levava pra dentro das baterias um surfe clássico e poderoso baseado numa postura firme e uma intimidade fenomenal com as bordas da prancha.
Aquilo era música para os olhos.

Toda vez que ele ia pra água, mágica acontecia, avançando ou não nas competições.
E quanto maior o mar e melhores as ondas, mais distante ficava o desempenho do Mudinho pra todo resto.
Nat Young era o único que acompanhava o ritmo - ritmo dos anos 60, entenda-se.
Ao contrário da maior parte dos caras que competiam no circuito dos pranchões, Mudinho parecia apenas interessado em esticar seu tempo surfando e melhor desculpa não havia para os quarentões levar adiante a vida de surfista.
Shaper que atravessou cinco décadas fazendo pranchas de qualidade inquestionável, ainda hoje seus pranchões são considerados obras de arte.
Quando comecei a surfar, minha primeira prancha foi uma Carlos Mudinho 7’2’’ vermelha com um raio branco, presente do namorado (hoje marido) da irmã mais velha.
O fascínio começou ali.
Quando fiz a lista de mais de 80 entrevistados para a série 70 e tal do canal OFF, destaquei que uma entrevista com Mudinho não era apenas necessária - era fundamental.
Tentei explicar, sem sucesso, a importância dele.
Ensinou Rico (e outros!) a shapear no final dos anos 60, venceu eventos importantes, explorou e desbravou como poucos o litoral de norte a sul do Brasil e surfou, e aqui enfatizo novamente, surfou - e surfa! - de forma sublime.

Mudinho no Pier em 1972



Mudinho mora hoje em São Pedro da Aldeia, surfa quando pode, dá aulas para surfistas surdos e aguarda com alguma ansiedade pela sua aposentadoria para poder surfar mais.
Pesquisando na grande rede, percebo que celebra-se pouco a arte desse camarada que é possivelmente o surfista brasileiro mais menosprezado pela imprensa.
Achei uma excelente entrevista feita por outro surfista surdo, Renato Nunes (http://carlosmudinho.blogspot.com.br), que fazia a tradicional pergunta, qual foi o grande momento da juventude...
A resposta conta tantas histórias que merece ser publicada na íntegra.

Uma vez, em 1967 teve uma forte ressaca no mar, as ondas quebravam de 4 metros e rolavam bem atrás do pontal do Arpoador. Foi super sufocante para atravessar a arrebentação e ficar bem longe da praia, como se estivesse em alto mar. Foi fora do comum. Peguei ondas grandes com uma 9’4 noserider Surfboard House. Nesse dia só entraram na água alguns longboarders corajosos como Geraldo, Persegue, Armando Serra, Penho, João (ex-marido da Fernanda Guerra, primeira surfista brasileira) e outros que não me lembro o nome. O meu outro momento marcante foi quando ganhei o campeonato Extra Magno 1967 na praia do Arpoador. Com experiência de apenas um ano de longboard. Fui homenageado como revelação do ano.

Encontrei-o dia desses num almoço da velha guarda promovido pelo generoso Armando Serra, não mudou nada.
Mesma energia, mesma eloquência de sempre.
Queria passar mais tempo surfando ao lado do Mudinho para aprender mais...