quarta-feira, janeiro 07, 2015

Surfando com Ernest Ranglin

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At 82, legendary guitarist Ernest Ranglin still plays the ska, reggae and jazz that he's championed and helped perfect for more than half a century. Ranglin was a key figure in shaping the sounds of ska — influenced by New Orleans jazz and R&B — in Jamaica in the late 1950s. But most of the world wouldn't hear of ska until producer Chris Blackwell teamed Ranglin up with a Jamaican singer named Millie Small. Together, they recorded "My Boy Lollipop," a song that became a smash at the height of Beatlemania and helped put ska and Jamaican music on the map forever.
You've probably also heard Ranglin if you've seen the James Bond film Dr. No — particularly the scenes set in Jamaica. The effects of Ranglin's fluid and rhythmic playing on Jamaican music, from mento to reggae, are deep and long-lasting. But his work as a jazz artist is equally amazing, and here at the Tiny Desk he does a bit of everything, including music from his lyrical and wonderful album Bless Up. So watch as this humble, charming gentleman makes magic on guitar, with his talented young band Avila holding down the beat.
Set List
  • "Surfin"
  • "Jones Pen"
  • "Avila (Oscar's Song)"
  • Direto do NPR 





















Ernest Ranglin from jasapaal on Vimeo.

segunda-feira, janeiro 05, 2015

Olimpo derrotado

[Cobertura da primeira vitória do Gabriel Medina em 2014, o início de uma longa e inesquecível Jornada]

De olho em algo muito maior do que apenas uma porrada no lipe...


O que fica na memória é a sequência fantástica de nocautes: Mick, Taj e Parko – Pow, Pow, Pow! Isso, só na conta do Medina. Mineiro e Pupo derrubaram Owen, Kerr e Slater.Temos, numa rápida contagem, 15 títulos mundiais e uma infinidade de Top 5 entre esses senhores.

Quem diria, 17 anos atrás, que os brasileiros deixariam um rastro de destruição desse porte nas areias do Super Bank – na verdade na água – logo na primeira etapa do ano...
Apresso-me em responder, com fatos, quem sonhava com esse momento: Peterson Rosa e Neco Padaratz – e Adriano.

O campeão do Quiksilver Pro 2014 ainda não tinha feito três anos de idade quando Slater venceu o Bronco na final do então Billabong Pro de 1997. Neco Padaratz ficou na semi, também diante de Kelly.

Adriano, na sua estreia no WCT, arrancou um terceiro em 2006, com apenas 19 anos, gostou tanto que decidiu fazer três finais na Goldie: 2009, 2010 e 2012. Os números servem para mostrar como uma vitória se constrói. Ela começa bem antes de Gabriel acabar com a festa dos australianos e fincar a bandeira brasileira no lugar mais alto do pódio.



Troca de guarda

Na Nova ASP, a expressão americana “terra de oportunidades” ganha novo significado. A nova direção quer mudanças e nada melhor do que nós, reconhecidamente mercado emergente, para dar a partida nos novos negócios.

Gabriel nem precisou usar seus superpoderes para superar um por um dos seus adversários no caminho do título. Durante todo o tempo, Medina parecia mandar uma mensagem como esta: “Pessoal, esse é o meu jogo e eu jogo do jeito que eu quiser”. Cada onda foi surfada apenas com o esforço suficiente para abater o oponente, sem exageros, sem firulas. Como Curren fez tantas vezes antes e como Kelly aprendeu a fazer como ninguém. A carta na manga, a arma secreta, tem lugar e hora para ser usada.

Medina aprendeu isso.


Doces rivais

Quase duas semanas depois de impor a quinta derrota seguida ao onze vezes campeão mundial, Adriano publicou uma foto de uma onda do Slater no Instagram com a seguinte legenda: “Como usar o espaço da onda, mesmo ganhando do Kelly na Gold, é nessa foto que eu observo a perfeição, tenho conhecimento que falta muito ainda”. Sempre conectado, Kelly respondeu: “Você é um sujeito bacana, Adriano”.

Mineiro tem uma maneira diferente de abalar o Careca, alguma coisa balança as estruturas do camarada que antes parecia tão imune aos encantos alheios. Talvez esse seja o jeito de Adriano repetir aquele famoso “Eu te amo”, que Kelly disse para Andy antes da final do Pipe Masters de 2003.

Não há hoje, no Circuito Mundial, ninguém tão preparado, obstinado e combativo como Adriano de Souza. Até Slater reconhece isso.

Quando inverter o sentido tem outro significado


Se quer uma revolução, faça você mesmo

A grande notícia na página da (Nova) ASP antes de começar o Quik Pro era o retorno de Owen Wright. Fazia todo sentido, afinal, o camarada tinha se apresentado com candidato ao título mundial em 2011, fazendo três finais seguidas com Slater. Após passar toda a temporada de 2013 de molho, recuperando-se de uma contusão, Owen era uma aposta certa. Ou não?

Perguntem a Miguel Pupo...

Pupo é um rapaz calado, fala mansa, boa praça, sempre com sorriso no rosto quando cruza com um companheiro, lembra até um pouco outro goofy brasileiro famoso pela velocidade e estilo, Victor Ribas.

Victor também não chamava muita atenção até um belo dia disputar o título mundial com Occy e Taj e levar a decisão para o Hawaii. Até hoje, o terceiro lugar no ranking de 1999 ainda não foi superado [Nota do Autor: em 2014 a história muda].

Não estamos aqui para falar do Victor, contemporâneo do pai do Miguel, Wagner Pupo.
Estamos aqui para mostrar que nem toda força da indústria consegue ganhar uma bateria.

Na terceira fase do Quiksilver Pro, Miguel Pupo silenciosamente aniquilou Owen Wright, dando cabo das expectativas da máquina de comunicação da ASP. Pupo foi possivelmente o surfista brasileiro mais elogiado pela imprensa estrangeira nessa primeira etapa – o que não deixa de ser uma grande conquista. Cada vez mais, Miguel vai crescendo debaixo dos nossos narizes como grande surfista.

Perguntem a Josh Kerr...


O serrote e a marreta

Existem alguns detalhes fundamentais na extraordinária vitória do Medina.

Número 1: ele nunca foi o melhor surfista do evento, mas venceu cada um dos principais favoritos com uma precisão cirúrgica.

Número 2: Gabriel rompeu barreiras, primeiro goofy em dez anos a vencer na Gold Coast – Mick Lowe bateu Andy Irons numa final complicada em Rainbow Bay em 2004.

Número 3: essa é a primeira vez que iniciamos o ano na frente do ranking.

Número 4 (talvez o mais importante): Gabriel não se deu ao luxo de voar.

Existe um dado novo nessa história: a partir de agora, já não somos mais francoatiradores, todos os olhos estão apontados para Medina, Mineiro, Pupo e cia. Passamos de caçadores a caça. Se antes nós reclamávamos do julgamento, agora é a vez deles – vide comentários abaixo de toda e qualquer publicação sobre a primeira etapa. São muitas primeiras vezes, tudo novo.

Como disse muito bem Adriano, eles (gringos) já têm onde se espelhar, sobram as referências do que fazer e como fazer, enquanto para os brasileiros é sempre uma surpresa porque ninguém trilhou esse caminho ainda – de ganhar o título mundial.
Gabriel tem um retrospecto excelente contra Taj, Mick, Slater e Parko, o problema é outro brasileiro, chamado Adriano de Souza, que tem 4 x 0 em cima dele.

Imaginem se a disputa do título ficar entre esses dois camaradas? Num tempo de mudanças, de troca de guarda, tudo pode acontecer.


quarta-feira, dezembro 24, 2014

Adolfo e a curra do jornalismo tradicional




Adolfo Sá escreve muito.
Manja o sujeito que voce pede pra escrever uma frase e ele imprime 14 páginas de texto impecável ?
Voce não conhece ele porque o cabra vem de Sergipe e o mundo do surfe vai, no máximo, do extremo sul até a capital do Rio de Janeiro.
O nordeste é solenemente ignorado pelas revistas de surfe, salve raríssimas exceções que justificam a regra.
Adolfo tem um blog chamado Viva La Brasa que vai virar livro em breve e ninguém ao sul de Aracaju vai sequer saber que existiu.
Leio o Viva la Brasa desde 2006 ou 2007 avidamente, nada que se publica ali é raso, quando Adolfo resolve mergulhar num assunto, vai de garrafa e tudo - com trocadilho.
O Cartunista Allan Sieber foi quem me apresentou ao Adolfo, jornalista de guerrilha que me identifiquei na mesma hora.
Suas entrevistas são longas e curiosas como conversas de botequim e os perfis que Adolfo cisma de fazer de vez em quando tem um fôlego absurdo de pesquisa.
O que o Viva la Brasa publicava não tem nada parecido na nossa imprensa chapa branca tupiniquim.
Binho Nunes foi o escolhido para um dos extensos papos em 2009, as respostas são tão antológicas quanto as perguntas,

Adolfo - Você foi convidado para competir na etapa final do mundial, o Pipe Masters. Neste evento, Kelly Slater garantiu seu 4º título mundial ao vencer uma semifinal histórica contra Rob Machado, Mark Occhilupo começou sua volta por cima ao chegar na final depois de passar pelas triagens, e vc foi mais uma vez o azarão, roubando o show nas primeiras fases p/ terminar o evento em 9º lugar. Foi a única oportunidade que vc teve na vida de disputar o Masters, certo?

Binho - Sim, foi minha única oportunidade e assim que recebi o convite pulei dentro; em 95 eu estava morando no Hawaii, já tinha feito semifinal em Sunset e estava bem seguro, nunca achei Pipe perigoso porque nunca tinha parado pra pensar nas pedras afiadas que tem no fundo, coisas de moleque querendo mudar o mundo...
Então fui que fui, morava numa casa cheia de amigos, queria mudar os parâmetros do surf brasileiro, achava todo mundo careta e com um surf antiquado, então agarrei essa chance com unhas e dentes, surfei Pipe com prancha bem menor do que a dos caras que estavam na competição, fiquei orgulhoso por ter passado pelo Taylor Knox na primeira fase e pelo Jeff Booth na segunda, perdi pro Derek Ho que tirou um 10 e um 9... Mas saí da água como se tivesse ganho a bateria, o locutor me comparou ao Tom Carroll naquelas condições, pois dei uma rasgada embaixo do lip que a praia toda gritou quando desapareci e depois apareci no meio da espuma branca gigante... Tá certo que o locutor babou meu ovo me comparando ao Tom Carroll... Sei que estava bem longe das atuações dele e nunca vou chegar lá... Mas a comparação me abriu grandes portas no outside de Pipe, valeu locutor!

Ainda hoje fico arrepiado lendo uma entrevista dessas.
Adolfo também desenha suas histórias em quadrinho e adora escrever sobre musica.
Sou capaz de ficar horas passeando pelo Viva la Brasa, lendo e relendo os artigos - com títulos geniais, como Uma onda, Uma bunda, sobre os anúncios da Reef  -  que Adolfo escreve e mal posso esperar pelo seu livro.
Ainda me choca um pouco o fato do nordeste ser encarado como gueto aqui pela turma do sul maravilha.
Para os cariocas, passou de Campos é tudo paraíba e pros paulistas, qualquer um em cima do Rio já é baiano.
Pergunte das ondas nordestinas numa roda de amigos e ouça as gargalhadas soar forte e piadinhas aflorar sem cerimônia.
O desconhecimento é sem fim.
Possivelmente, a região nordeste é a que tem ondas de melhor qualidade em todo Brasil e nem incluo Fernando de Noronha nesse balaio.
Falo apenas dos fundos de pedra espalhados desde o Norte do Espírito Santo até lá em cima no Pará.
Sabendo que não há interesse nenhum nos seus surfistas e nas suas ondas, o Nordeste criou sua própria rede de comunicação e se auto-sustenta sem precisar de revistas, sites ou canais de TV caolhos.
Até mesmo as marcas que imperam no Nordeste vendem quase exclusivamente naquele mercado.
Pena que não haja curiosidade no que se passa nas praias de cima do litoral brasileiro.
Nossa primeira grande estrela de repercussão internacional veio lá da Paraíba, Fábio Gouveia, até hoje um dos surfistas mais carismáticos de toda história - e não me refiro exclusivamente ao Brasil.
Chico Padilha, outro paraíba de memória inesgotável e cultura bem acima da média, não cansa de nos alertar que toda hora surge um talento em algum canto de cima.
Carlos Burle, Jadson André, Eraldo Gueiros, Heitor Alves, Danilo Couto… Ia faltar espaço pra citar um pedacinho pequeno da história do surfe nordestino.
Por enquanto, fico feliz de saber que Adolfo Sá, cabra arretado de bom, vai lançar seu livro e desde já exijo que o leitor se esforce um bocadinho para achar o Viva la Brasa e invista algumas horas de leitura.
Satisfação garantida ou seu dinheiro de volta.



VIVA LA BRASA from Viva La Brasa on Vimeo.

sexta-feira, dezembro 05, 2014

Viagem pra dentro

A espera...


          Pilantragem suprema é citar textos longos.
Sempre andei acompanhado do Galeano, Eduardo Galeano, escritor uruguaio que escreve com sangue, suor e lagrimas.
Galeano gosta de contar histórias da America Latina, dos povos esquecidos, contos, fábulas, mitos e adora falar dos becos e esquinas que pouca gente vai se dar ao trabalho de conhecer.

Sua trilogia, Memória do fogo, foi premiada pelo Ministério da Cultura do Uruguai e recebeu o American Book Award (Washington University, EUA) em 1989, mas isso não tem a menor importância.
O que ele escreve, e principalmente o jeito dele escrever, é o que importa.
Numa edição especial de viagens - justamente numa época onde a aventura transformou-se num pacote simpático, suavemente parcelado em 12 vezes sem juros - não poderia faltar a leitura do Galeano para um tempo de mudanças.

Extraído do livro De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999), o trecho a seguir carrega mais de uma mensagem.
Ele nos ensina, ou melhor, relembra uma coisa que já ouvimos antes, de maneiras diferentes, a verdade está na viagem, não no porto.
A viagem começa quando voce decide.
Me solidarizo com o leitor que viaja sem sair do lugar.
Nem todo mundo tem uma pequena fortuna para gastar em passagem e hospedagem num barco luxuoso do outro lado do mundo.
Pra ser mais específico, nem todo mundo tem sequer a grainha que é preciso para ir até o norte do Peru para pegar onda.
Pipa ? Saquarema ? Maresias ? Noronha ?
Quem disse que faz falta ?

Essa revista que voce tem nas mãos ajuda a vender esses sonhos.
A TV martela ondas azuis e perfeitas como se fosse a tarefa mais simples da face da terra entrar num avião e aterrissar numa ilha paradisíaca.
Pra muita gente é mais fácil desprezar a própria praia do que aprender, ou re-aprender a gostar dela.
Esquecem-se que essa mesma praia que hoje desdenham foi aquela que os ensinou a amar o mar.
Foi nessa mesma água suja e ondas ruins que voce ficou em pé pela primeira vez na prancha e nunca mais quis saber de outra coisa.
Toda memória que temos das nossas praias não podem ser apagadas pela fantasia da onda perfeita.
Afinal de contas, nossa referência de onda perfeita foi estabelecida exatamente naquele dia mágico da nossa infância.
Aconteceu com voce em 1987, com seu amigo mais velho em 1975, com o Greg Noll em 1949 e com Medina em 2001.
E acontece todos dias, igualzinho, com as mesmas sensações e os mesmos cheiros e texturas.
Galeano escreve sobre isso.


A natureza se realiza em movimento e também nós, seus filhos, que somos o que somos e ao mesmo tempo somos o que fazemos para mudar o que somos. 
Como dizia Paulo Freire, o educador que morreu aprendendo: “Somos andando”. 
A verdade está na viagem, não no porto. 
Não há mais verdade do que a busca da verdade. 
Estamos condenados ao crime? 
Bem sabemos que nós bichos humanos andamos muito dedicados a devorar o próximo e a devastar o planeta, mas também sabemos que não estaríamos aqui se nossos remotos avós do paleolítico não tivessem sabido adaptar-se à natureza, da qual faziam parte, e não tivessem sido capazes de compartilhar o que colhiam e caçavam. 
Viva onde viva, viva como viva, viva quando viva, cada pessoa contém muitas pessoas possíveis e é o sistema de poder, que nada tem de eterno, que a cada dia convida para entrar em cena nossos habitantes mais safados, enquanto impede que os outros cresçam e os proíbe de aparecer. 
Embora estejamos malfeitos, ainda não estamos terminados; e é a aventura de mudar e de mudarmos que faz com que valha a pena esta piscadela que somos na história do universo, este fugaz calorzinho entre dois gelos.

Eduardo Galeano,

De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso (Editora LP&M, Brasil, 1999)

terça-feira, novembro 04, 2014

sexta-feira, setembro 05, 2014

Uma Foto, Uma Musica

Foto do Russel Ord
[Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. 
Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. 
Quem sou eu no mundo? 
Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. 
Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. 
Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. 
Ainda que seja mentira.]

quarta-feira, setembro 03, 2014

Pranchas que nos definem

Uma cavada maiúscula

A Cusparada

A cena mais representativa do cinema de surfe a tratar da relação homem x prancha é do clássico que fecha a década de 60, Evolution do australiano Paul Witzig.
Descrevo brevemente para conseguir melhor efeito, Wayne Lynch, então um adolescente e o mais revolucionário surfe de back side que já aparecera numa tela de cinema, pega sua prancha com desdém e a arremessa n'água.
Em seguida, cospe, certeiro, no fundo da prancha.
O jeito que Lynch tratava sua prancha, a mesma que é magistralmente conduzida à lugares e ângulos nunca antes vistos numas direitas que podem ser em qualquer um dos 150 picos no estado de Victoria. Eu queria dizer que o jeito que Lynch tratava a prancha é semelhante as paixões arrebatadoras das peças do Nelson Rodrigues, quase irracional, absolutamente instintivo.
Vendo a cena do garoto de 16 anos, possivelmente o melhor surfista do mundo em 68/69, esculhambando com a prancha, sua companheira, no mais violento desempenho jamais visto, chocava porque mostrava que Lynch queria mais daquele toco.
Certa vez, Lynch foi entrevistado por um desses camaradas que vive o passado intensamente em busca de respostas sobre a evolução das pranchas e perguntou a Lynch se ele era capaz de reproduzir a magia daquela revolucionária prancha.
A resposta de Lynch foi curta e rasteira, aquela prancha era uma merda na época e continuava uma merda hoje em dia e seu interesse era, e ainda é, em pranchas para evoluir seu surfe, mesmo aos 50 anos - na época.




Single fin x Twin Fin

1976, North Shore de Oahu, Shaun Thomsom e Mark Richards comparam suas pranchas.
Shaun mostra sua monoquilha Spider Murphy, 7'6'' cheia de curva pra encarar Pipeline e Richards exibe sua biquilha, shapeada por ele mesmo, inspirada nas pranchas que Reno Abelira surfou na Australia alguns anos antes.
Os dois são os líderes da revolução que convencionou chamar de Bustin' Down the Door, em outras palavras, Shaun e MR são os dois maiores surfistas do planeta naquele exato momento, ninguem duvidava disso.
O jeito que cada um atacava as ondas no Havaí aplicou o primeiro grande rompimento da década. 
A partir daquela cena do filme Free Ride, do Bill Delaney, o surfista escolhia se era Shaun ou MR, não tinha volta.
Ou melhor, tinha sim, voce podia escolher entre Larry Bertleman, que surfava com as stingers do Ben Aipa, ou as Pin Tails do Gerry Lopez, mas nem Lopez, nem o Rubber Man ganhavam títulos mundiais.
Mal comprando, seria como se Medina e John John aparecessem no principal filme de surfe do ano conversando sobre suas pranchas - e supostamente essas mesmas pranchas tivessem características completamente diferentes.
Logo em seguida, Shaun e MR aparecem surfando dum jeito que definiu o que era surfe de qualidade por quase 10 anos.
O grande momento do filme é quando MR dropa uma bomba em Off The Wall e Shaun vai atrás, super profundo, e os dois entubam juntos, triunfantes.



Bola de fogo, 1994

Ninguem acreditava ou concebia em 1994 que ondas maiores de 6 pés pudessem ser surfadas com uma 5'7''.
Eis que Sonny Miller, diretor americano da série The Search idealizada pelo gênio louco Derek Hynd e bancada pela Rip Curl, exibe evidências de vida extra terrestre sobre as ondas.
Foi em Bawa, uma direita tambem conhecida como Fishbowls, num ponto (então) remoto da Indonésia que Tom Curren aparece surfando com uma prancha emprestada, 5'7" x 19 1/4" x 2 1/8", fazendo o que então nenhum outro homem tinha tentado.
Curren deslizava ao som duma Jam session que ele mesmo distorcia a guitarra com toques psicodelicos a lá Hendrix.
Suas curvas eram tão suaves e precisas que a partir dali as fishes, antes pranchas relegadas a condições de menor impacto, subitamente se elevaram ao patamar de design válido para toda e qualquer onda.
Ainda em 94, Log Cabins quebrou enorme e la estava Curren testando os limites da sua Fireball.
A Fireball era criação do Tom Paterson, irmão do lendário Michael Peterson, e dizem as boas línguas que a 5'7'' do Curren tinha seis canaletas e um degrau no meio delas que chamava-se step bottom.
Se hoje qualquer loja de surfe bacana que se preze tem uma fishezinha pra expor, isso deve-se ao Curren, 1994, em Bawa e ao Sonny Miller.

É um trabalho duro, mas alguem teve que faze-lo - antes.

sexta-feira, junho 13, 2014

Just another fucking surfer...

Apenas outro surfista ?


Cara, tenho uma pergunta pra te fazer, por que não tem uma única onda do Curren no teu filme ?

Eu tinha acabado de assistir o Deeper Shade of Blue e apesar de ter adorado o filme do início ao fim, não entendia como um filme que conta a história do surfe e dos diferentes estilos de se divertir na onda não tinha o mais elegante de todos surfistas - me permitam abrir um parêntese imaginário pro Phil Edwards e Mickey Dora.
Conversava com Jack McCoy no ano passado durante o Primeiro SAL (Surf at Lisbon Surf Festival) e resolvi perguntar por mera curiosidade - minha e do João Valente (editor da Revista Surf Portugal) - e a resposta não foi menos que surpreendente.
He's just another fucking surfer, disse McCoy, mal traduzindo seria algo como, ele é apenas mais um surfista, pôrra!
Aquilo me chocou, mas Jack não parou por ali.
Qual foi a contribuição do Curren pro surfe ? Ele surfava bem, e daí ?
Tambem não tem onda do Occy no filme...
McCoy me olhava com alguma irritação, aquela não era o tipo de pergunta que ele preferia responder.
Um dia antes ele recebera o prêmio de melhor filme do Festival e eu tive a honra e o privilégio de entregar com toda reverência que a solenidade merecia.
Estávamos no saguão do hotel que a família McCoy se hospedava - estavam todos lá, esposa e casal de filhos, aproveitando o melhor que Lisboa tinha para oferecer e, de quebra, exibindo sua última obra prima.
Jack falou que pesquisou pro filme como nunca tinha feito antes, ele e Derek Hynd se reuniam e discutiam por horas a fio sobre o que era relevante ou não na história do surfe.
Separaram mais de oitenta diferentes perfis de todos surfistas que fizeram algum tipo de contribuição ao esporte nos últimos cem anos - divididos em mais de 17 categorias.
Assistiram e re-assistiram todos filmes que conseguiram botar as mãos, desde a época do Duke até Kelly Slater e companhia.
O primeiro corte do filme tinha mais de tres horas e meia!
O diretor havaiano, radicado na Austrália, disse que passou uns dois anos sem saber direito o que fazer com aquele catatau de imagens que tinha compilado.
A meta que ele e o caolho decidiram mirar era escolher surfistas que tinham feito algo grandioso na arte de surfar e deixado uma marca na areia, apontando pra frente.
Curren e Occy sempre estiveram entre os primeiros que fincaram a bandeira do desempenho em alto nível para minha geração. 
De repente me deparo com a possibilidade daquilo não representar absolutamente nada...
Foi um choque.
A escolha dos personagens não foi tarefa fácil, diz ele, muitas vezes Derek achava que um camarada merecia estar na lista por inúmeras razões e Jack discordava.
Outras vezes, Jack estava convicto que fulano era fundamental e Derek enlouquecia com a escolha.
O processo passava literalmente pela defesa de determinados casos como se estivessem numa corte de justiça, até que finalmente os dois concordassem.
McCoy vacila por um instante e Valente continua a pergunta que fiz, ainda mais implicante e elaborada, 
Jack, voce reconhece que fazer um filme sobre a história do surfe e não colocar uma onda do Curren, ou melhor, colocar mas não dar sequer o crédito é como uma blasfêmia, não ?
McCoy sorri um sorriso muito do sacana e conta mais uma das suas irresistíveis histórias,
Voces sabem que a premiére mundial do Deeper Shade of Blue foi em Santa Barbara ?
(Detalhe, Tom Curren é de Santa Barbara)
Nós dois, eu e João, ficamos ainda mais curiosos...
Terminado o filme, seguia McCoy com sua descrição, eu perguntava pras pessoas, o que voce achou do filme ? e tudo que me respondiam era, Cadê o Tom Curren ?
Bom, voce quer mesmo saber ? Ele é um excelente surfista, mas não fez muito pelo surfe.
All Merrick, que fazia suas pranchas, deveria ter mais reconhecimento...
A lista de gente que ficou fora do filme é grande, diz Jack, sem pena do que ficou pra trás.
Ele passa a enumerar as pessoas que não são nem citadas no filme, todos balançamos a cabeça em consentimento.
Não resisto fazer uma última pergunta, e todo esse material, toda essa pesquisa...
Voce não tem vontade de continuar contando todas essa histórias ?

Do alto dos seus 62 anos, Jack responde com um suspiro, longo e profundo.

sexta-feira, abril 25, 2014

Bells 2013

[Aproveitando a deixa do Bells de 2014, publico aqui a resenha Facit do evento de 2013]


O indomável

Horas depois da extraordinária vitória do Adriano de Souza em Bells, a imprensa estrangeira tentava, ainda meia tonta, explicar o que todos acabavam de testemunhar.
Afinal de contas, Bells é o evento mais tradicional do mundo, mais de 50 anos sem parar, e a lista dos seus vencedores é a mais verdadeira lista de surfistas de ponta que há, mais ainda que a lista dos campeões mundiais da ASP.
Vejam só, Nat Young, Terry Fitzgerald, Jeff Hackman, MP, Mark Richards, Simon Anderson, Cheyne Horan, Carroll, Curren, Pottz, Occy, Sunny, Hoy, Dorian, Andy, Taj, Slater, Parko, Fanning...
Foi Shane Dorian que cunhou a famosa frase, Nenhum prego jamais venceu em Bells, naturalmente  defendendo seus interesses, mas isso não vem ao caso.
Adriano conhece bem a história dos eventos da ASP e tem como objetivo, alem do óbvio título de campeão mundial, fincar bem seu nome como grande surfista nos principais campeonatos do circuito.
Poucas horas depois do Mineiro literalmente quebrar o sino, o saite do jornal Tracks, quase tão antigo quanto o Rip Curl Bells Easter classic, descrevia a seguinte cena:
No banquete comemorativo dos 50 anos do campeonato de Bells, foram convidados todos campeões desde 1962, homens e mulheres.
Na oportunidade, foi lançado tambem o livro Bells, a praia, o campeonato e os surfistas do Michael Gordon (irmão daquele simpático câmeraman que entretia a todos com assovios e sorrisos).
Mineiro comprou um livro e foi, de mesa em mesa, catando os autógrafos de cada um dos campeões, mostrando respeito e devoção pela história do esporte que lhe deu tudo.
Essa é uma diferença fundamental entre Adriano e todo resto da sua geração e mais jovens, respeito pela história.

Filipe, o pequeno grande Homem

Alguem ainda se recorda das dúvidas que pairavam em torno do Filipe Toledo ?
Responsável por uma das manobras mais impressionantes de todo campeonato, Filipinho surfou com total abandono em Bells e só não mais à frente por ter enfrentado o melhor surfista de todo evento, Jordy Smith.
Precisamos apenas de cuidado ao tentar avaliar as ondas do rapaz e levar em consideração que, mesmo com um surfe de altíssimo nível, Toledo ainda tem muito o que aprender no tour.
O primeiro ano de todos debutantes é para absorver toda e qualquer informação que puder, mesmo que, como Bobby Martinez, ele vença um evento.
Um quinto em Bells é um belo começo.


O poderoso Panda

Ainda melhor do que ver Willian Cardoso bater Slater numa bateria sensacional, foi ler os comentários atônitos dos gringos perguntando sobre o Panda.
Aonde se escondia esse cara ?
Finalmente um surfista power de verdade saindo do Brasil
É o novo Richard Cram
Como esse cara não está no circuito mundial ?
As respostas são faceis.
Cardoso não se escondia, apenas competia no WQS, circuito solenemente ignorado pela imprensa e até mesmo pela própria ASP.
Um circuito sem prestígio nenhum como o WQS é praticamente um limbo entre o mais completo anonimato e os top 32.
Tirando dois ou tres eventos pingados no planeta Prime, o resto não serve nem pra encher a barrinha do lado nos maiores saites de surfe por aí.
O Panda é um produto desse circuito desalmado que serve tambem como uma espécie de organização militar, onde os cadetes devem se submeter aos mais enlouqecidos desejos dos mais graduados em nome duma possível aceitação.
Os top 32 são os oficiais, a turma do WQS são os recrutas e as grandes marcas, o estado maior.
Willian Cardoso era um recruta dedicado, seria o equivalente a um sargento hoje, tem mais horas de batalha que muito malandro nos top e deseja os escalpes com mais fúria e paixão do que todos americanos e australianos juntos.
O que acontece com o Panda hoje é a mesma coisa que passou Tiago Pires antes de entrar no tour, sempre perto da vaga, sempre batendo na trave e surfando tanto quanto seus pares no WCT.
Voltando a bateria contra Slater, Cardoso mostrou ao público com quantos litros d'água se faz uma cachoeira.
Enquanto Slater buscava os tubos apertadinhos, o Panda enterrava seus quase 90 kilos de músculos na parede do bowl de Bells e deixava todos boquiabertos.
O resultado foi uma derrota com gosto especial de merda para o careca, justo no ano que ele anunciou estar comprometido.
E desta vez, não tinha juíz pra culpar, nem falta de ondas, nem prancha...

Raoni Gigante

Juro que não aguento mais ouvir os locutores se referindo ao Raoni como matador de gigantes.
Raoni não é matador de gigantes, Raoni É um gigante!
Ele mesmo escreveu isso no twitter depois de vencer Joel Parkinson.
A lista de baixas é grande e do mais alto nível, Slater em Portugal, Fanning, Occy, Parko, todos quando disputavam títulos.
Raoni é o tipo de sujeito que cresce nesse ambiente de tensão.
Coisa de quem tinha que cair, desde pequeno, nos maiores mares em Itaúna, uma das ondas mais fortes do Brasil.
O cara ganhou um evento em Sunset, por Deus do Céu!
Evitem se referir ao Raoni com essa expressão cafona e ridícula que os gringos inventaram por absoluta falta de recursos no próprio idioma.
Raoni é um gigante, Pôrra!

Ao meu comando

Steve Shearer, meu jornalista predileto nesse mundinho cão das coberturas do WCT, aproximou-se do Mineiro e disparou, como voce está se sentido agora que toda atenção da imprensa é dedicada ao Gabriel Medina e seu futuro título mundial.
Ainda estávamos nas primeiras fases e Adriano respondeu altivo, É verdade, todos falam dele, mas se voce perceber, nos últimos cinco anos, estive sempre nos top 5. Não sou mais uma zebra. Eu sou candidato ao título.
Mineiro poliu seu surfe aos poucos e foi se livrando da sua cavada em dois tempos para o Bells deste ano, claramente observando o que funciona e o que não funciona no julgamento.
Um amigo meu disse que Mineiro compete com o livro de regras debaixo do braço e está coberto de razão.
A inteligência do Adriano vai bem mais longe do que enxergam nossos pobres companheiros de imprensa.
Mineiro sabe como ler uma onda e como estudar seu ataque pra cada uma delas, ao contrário de algum dos seus adversários que confiam somente no talento.
Voce não se mantem nos top 5 sem muito esforço instinto competitivo.
Vitórias em Jeffreys, Supertubos e agora Bells.
Adriano crava seu nome no Olimpo não apenas como maior competidor brasileiro de todos tempos, mas um dos maiores e mais ferrenhos competidores de todos tempos.
Seu nome agora figura ao lado do Nat Young, Terry Fitzgerald, Jeff Hackman, MP, Mark Richards, Simon Anderson, Cheyne Horan, Carroll, Curren, Pottz, Occy, Sunny, Hoy, Dorian, Andy, Taj, Parko, Fanning e Slater.
E em 2013, ninguem está mais próximo dum título mundial do que Adriano de Souza.

10 fatos que (tambem) marcaram o Rip Curl Pro Bells 2013

1 - Adriano venceu seu primeiro evento para seu novo patrocinador, a marca cearense Pena - todo investimento já teve retorno.

2 - Alejo voltou ao seu melhor e deve voltar pros top 10

3 - Carissa Moore fez chover em Bells e dificilmente perde o título em 2013

4 - Apesar da vitória da Carissa, Steph ainda tem a linha mais pura e bela em Bells - podemos incluir aqui mais da metade dos top 32.

5 - Nat Young sentiu-se em casa nas direitas geladas de Bells, mas a ajuda do Maurice Cole foi preciosa.

6 - A cara do CJ quando Mineiro usou corretamente a prioridade na terceira fase foi uma das cenas mais divertidas do evento

7 - O vigor com que Adriano badalou o sino até quebrar!

8 - Jornalistas australianos e americanos finalmente mostraram respeito, e arrisco até dizer, reverência ao surfe brasileiro.

9 - Parko jogou fora mais uma das suas providenciais vantagens depois da derrota do Careca

10 - Chupa Careca!


terça-feira, abril 08, 2014

Tio Buttons

As muitas faces de Buutons


Tio Buttons, Tio Buttons, me leva para mais uma onda ? 
A garotada não cansava de pedir e Buttons, incansável, repetia seu velho ritual de compartilhar o surfe, fosse um turista na sua escolinha em frente a Chun’s Reef no North Shore, ou um veterano de guerra no seu trabalho voluntário em White Plains Beach no Westside de Oahu.
Todo mundo virava garoto perto do Buttons.
O que a larga maioria dos seus alunos não sabe é que esse camarada que nunca tira o sorriso do rosto já foi um dos maiores surfistas do planeta e é hoje reconhecido como um dos mais influentes de todos tempos.
Nascido Montgomery Ernest Thomas Kaluhiokalani em Honolulu, 1958, sua mãe queria homenagear seu ator predileto, Montgomery Clifft. 
A avó quando viu seus cabelos enroladinhos lhe deu apelido de Buttons - os cachinhos pareciam botõezinhos...
Cresceu surfando em Waikiki em qualquer coisa que flutuasse, evoluiu para as famosas bancadas do South Shore, Ala Moana, Kaisers e rapidamente ganhou o mundo- e o North Shore.


Quem aprendeu a surfar no final dos anos 70, início dos 80, queria surfar como Buttons.
Os feras do Quebra Mar e do Arpoador, Itamambuca ou Pipa, caras que a minha geração admirava, queriam surfar como Buttons.
Alguns dos melhores até tinham muito do estilo do Buttons no jeito de pegar onda, Gironso no Arpoador, Valdir Vargas no Quebra Mar, Tinguinha, mesmo Picuruta, ainda na época da biquilha, tinha uma ginga havaiana.
Todo mundo vai lembrar de alguem que trazia traços do Buttons em cima da prancha.
E era aqui no Brasil que o legado do Buttons se espalhava mais rápido, por motivos quase óbvios.
O primeiro deles, fácil de identificar no primeiro olhar, cor da pele e sua cabeleira sarará que nos remetia imediatamente ao Jairzinho, Furacão do glorioso Tricampeonato na Copa do México em 1970.
De todos ídolos do surfe mundial, os havaianos de pele escura pareciam sempre mais próximos dos brasileiros por mera afinidade.
Esse, o segundo motivo, afinidade.
Quando Shaun, Rabbit e MR chegaram para brigar pelo título mundial, a coisa ganhou um ar de seriedade que não combinava muito com a geração que reinava nas praias brasileiras. 
Claro que existia exceção, uma penca delas, mas tudo que os cabeludos daqui queriam era se divertir, sem compromisso com pôrra nenhuma, como os havaianos.
Australianos, sul africanos e americanos eram claros demais, loiros demais, quietos demais...
Havaianos e brasileiros eram mais espaçosos e divertidos.
Bocão, Otavio Pacheco, Rico, Proença, sentiam-se em casa com os Aikau, Abelira, Kealoha, Ho, Carvalho. 
Buttons nunca estava sozinho (como os brasileiros!), fosse nos filmes, na temporada havaiana ou nas revistas.
Voce lia o nome dele e logo ao lado vinha escrito, Mark Liddell e Larry Bertleman, o trio calafrio de Velzyland.
Bertleman era um pouquinho mais velho e exercia enorme influência nos outros dois e durante um curto período, Bertleman foi um dos surfistas mais bem patrocinados do mundo - isso num tempo que a palavra patrocínio ainda não tinha a dimensão que tem hoje.
Bertleman era um superstar e Buttons seu pupilo mais virtuoso.
Quando o filme Playgrounds in Paradise foi exibido no teatro do Hotel nacional (talvez Colégio Rio de Janeiro...) para um público de ensandecidos surfistas, um dos momentos de maior delírio foi a entrada triunfal do Buttons fazendo mágica com sua Stinger Aipa.
Breve pausa para explicar o que era, e representava, uma Prancha modelo Stinger shapeada pelo Ben Aipa.
Ele mesmo, Aipa, era um excepcional surfista, mas foi sua ousadia como shaper que o tornou lendário. Aipa foi o camarada que refinou a prancha para onda pequenas, criando a rabeta Swallow para dar mais agilidade nas manobras e teve a brilhante idéia de enfiar um Wing quase no meio da prancha tornando suas pranchas verdadeiros skates.
Buttons, Bertleman e Liddell eram os pilotos de teste do Aipa e ainda arrastavam a quilha o máximo que podiam pra frente, deixando quase nenhum impedimento para curvas nunca antes sonhadas.


Percebam que entre 75 e 78 quase todo imaginário havaiano rondava ondas grandes ou gigantes e de repente aparece aquela turma de Velzyland sufando ondas pequenas, finalmente possíveis, manobrando com uma criatividade absurda e desenhando um linha completamente diferente de tudo que se via nos filmes da época.
O que Buttons fazia era humanizar e aproximar a fantasia de um Havaí improvável para qualquer um.
Não eram mais ondas assustadoras como Pipe, Sunset ou Waimea, Buttons e cia pareciam se divertir tanto nas ondas pequenas de Velzyland quanto Lopez em Pipe, ou BK em Sunset - talvez mais.
Duma hora pra outra, o surfe voltou a ganhar um ar inocente de brincadeira, uma coisa quase infantil de experimentar só pra ver no que vai dar.
E assim foram surgindo 360s, rock’n rolls, cut backs com curvas de ângulos obtusos, lay backs extendidos até não poder mais e uma alegria de surfar impressionante.
Buttons cavava de front side, chegava no lipe e trocava de base, batia de back side, voltava e trocava de base novamente.
Tudo subitamente parecia possível vendo Buttons surfar.
Enquanto todos surfistas do seu calibre correram para o recem criado circuito mundial, Buttons não queria deixar o Havaí por nada desse mundo, numa preguiça digna de Macunaíma, nosso heróis sem caráter.
Fora dágua Buttons arrepiava de skate, imitando Alva e Peralta, antecipando em pelo menos 20 anos a influência que o carrinho devolveria pro surfe com a ascenção dos aéreos.
Nem sempre a vida foi justa com ele. Buttons deixou-se levar pelas drogas que tomaram, ainda tomam, tantas vidas no Havaí.
Durante alguns anos Buttons sumiu do mapa, desintegrou-se até ser achado sem muita esperança nas esquinas do mundo.
Reinventou-se com quase 50 anos, largou um vício, drogas, voltou para outro, surfe.
Reapareceu como se nada tivesse acontecido, forte como um touro, surfando com a mesma alegria, fez uma escolinha para ensinar surfe e espalhar o Aloha.
Foi fisgado por um imperdoável cancer e faleceu aos 54 anos apesar de todo esforço que a comunidade fez para ajudá-lo.
A herança dele está clara na homenagem que Kelly Slater fez à ele no Instagram,
Buttons surfava do jeito que nós sonhávamos ser possível surfar.

Buttons & Aipa = Boom! Pow! 


HISTORIA CURIOSA - Final de 7 em Pipe

Em 1981, logo após ter sido anunciado os classificados para a grande final do Pipeline Masters, Buttons tinha ficado em quinto na segunda semi e não achou justo o resultado.
Houve, possivelmente, uma onda que não foi vista, ou confundida.
Os Black Trunks resolveram dar uma forcinha, o tempo fechou e, pela primeira vez (talvez a única!) na história da ASP uma final teve 7 surfistas ao invés dos tradicionais 6.
Buttons ainda terminou em terceiro, mesmo fazendo uma gritante interferência no Allan Byrne.
O evento foi vencido por Simon Anderson num modelo de prancha muito contestado então, a triquilha.

Todos outros competidores, Buttons incluso, estavam de monoquilha.

Até Breve... Foto do Divine